Crónicas:
O Aquário
idiotizante de Domingo
O domingo é realmente um dia deprimente para quem se deixa
levar pelas distrações desse aquário chamado sociedade em que fomos postos. Sentado no sofá de
casa, resolvi ligar o televisor. Sei que devia sair para algo mais produtivo, como uma caminhada ou ler
um bom livro, mas peguei o controle remoto e acionei o botão sem pesar; talvez
já esteja sob o efeito da idiotização a que as pessoas são submetidas. Pensei…
é, ainda penso.
Tentei acompanhar o que passava, mas logo fiquei inclinado a desligar
assim que o apresentador fez a primeira piada:
"Fulana falou sobre como tal sujeito é
incrível e maravilhoso. Hum, só isso, Fulana? Ou rolou mais alguma coisa?"
Todos riram, não sei se por vontade própria, ou por obrigação de uma placa, ou pelo riso dos famosos que estavam no palco. Em casa, muito provavelmente, muitos também
seguiram o coro de risos. Parece uma fala tão boba, mas é incrível como,
naquele momento, me pareceu que o tempo havia regredido e que eu estava
novamente em 1992. Não se tratava de um sentimento saudosista, de nostalgia,
nem de uma memória afetiva; senti que 40 anos é pouco tempo para que as pessoas de uma sociedade mudem
seus gostos. Digo isso porque, se ainda usam a conotação sexual como forma de
fazer com que as pessoas fiquem ligadas à televisão, é porque elas gostam desse
tipo de tentativa de piada que adentra a particularidade do outro.
Mas, se o leitor acha que desliguei, devo decepcioná-lo:
mantive ligada. Na sequência, o tal apresentador anunciou um "bom
samaritano" que ajudava umas pessoas a partir de um assistencialismo que usa o esporte como meio.
— Ele é um cara incrível, meu — disse o apresentador —
ajuda muita gente. — Apesar das dificuldades, tenta ajudar esses jovens a
realizar seus sonhos — respondeu o bom samaritano. — E algum dos jovens que
você ajudou já chegou a algum grande clube? — perguntou o apresentador. — Não,
mas quem sabe...
O apresentador mal esperou o sujeito continuar; sabe bem
ele que viver de sonhos não paga a conta. Mas, estimular o eterno sonho fazendo esse tipo de discurso de autoajuda, sim melhora a imagem e dá muito muito dinheiro para ele próprio, ele completou:
— Eu sempre digo: o esporte muda vidas, meu.
Pensei... realmente. Aí se esconde um medo de
que o sujeito se revolte e não esteja bem enquadrado e ajustado para não dar
trabalho.
Nesse momento, desliguei a televisão. Mas os senhores se
acalmem: não se trata de um protesto contra um projeto de distribuição de
renda; na verdade, trata-se da constatação de que o que se desejava com aqueles
pobres era a espetacularização, pois não ouvi sequer o sujeito falar em justiça
social. Acho que isso não deve dar ibope, ainda mais… entre os anunciantes.
Desligar a televisão é o ato mais fácil. O difícil, e que levo comigo toda segunda-feira para a sala de aula, é tentar desprogramar
esse olhar que se acostumou a ver o outro como um espetáculo ou um favor, e não
como um sujeito de direitos.
O domingo acaba, mas a idiotização, essa, é um
turno integral.

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