"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.
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domingo, 12 de julho de 2026

Crônica - A grande copa



A Copa de 2031 teve sua data alterada pela associação dos presidentes imperialistas, pela associação das Bets, pelas emissoras de televisão hegemônicas e pela recém-criada associação das emissoras independentes, que juntas tiveram lá seus motivos para tomar essa decisão. Obviamente, o importante é termos a tão aguardada Copa do Mundo — que é nossa, que é de todo mundo —, mas que certos chatos teimam em chamar de política do "pão e circo". Claro que classificar esse espetáculo grandioso, uma paixão mundial, como pura manipulação é um exagero. Claro que é!

— Hoje a seleção faz o seu jogo de estreia! — anunciou o repórter de uma famosa emissora. — Jogaremos contra a seleção do Vaticano, que participa da Copa do Mundo pela primeira vez. Na BetLasca, as apostas estão em 12 para 1. Temos, assim, o Vaticano como o grande azarão. Volto com você, Dissimulado.

— Está aí então. Obrigado, Pauciva! Pauciva Andrade trazendo as notícias direto do campo — respondeu Dissimulado. — É, meus amigos, os nossos apostadores estão confiando na nossa seleção.

O jogo começou. Nos primeiros 15 minutos, a seleção brasileira fez o primeiro gol contra o time de padres franciscanos do Vaticano, mas, após uma ligação do Papa, o gol foi anulado. Passados mais 15 minutos do jogo reiniciado, a associação das Bets ligou e o gol foi validado. O torcedor em casa ia à loucura com as reviravoltas daquela partida. Os narradores, enlouquecidos, exaltavam as emoções do confronto. Por fim, o gol foi mantido.

O técnico brasileiro decidiu, então, colocar em campo o jogador mais conhecido da internet: Fubanguet Nino Jr. Um craque com grande experiência que, apesar de ostentar o semblante de um homem de 45 anos tomador de cerveja, tinha apenas 28 anos e milhões na conta — e eram esses milhões que garantiam os seus parceiros comerciais. Dentro de campo, a bola corria atrás dele; a bola tinha desejo de craque, mas o craque não tinha desejo de bola. Fubanguet Nino Jr. estava há cinco anos sem jogar, mas o povo ainda acreditava no herói, esperando que, em algum momento, ele fizesse uma gracinha ou uma dancinha que nos levaria ao título.

O jogo seguiu até que, em uma tentativa de invasão à grande área, foi marcado pênalti para o Vaticano. O Bispo Inquisition Santos foi o escolhido para a cobrança. O pênalti foi convertido e a partida seguiu morna até os 47 minutos do segundo tempo, momento em que a associação das Bets finalmente teve a certeza do resultado. A decisão saiu: segundo pênalti para o Vaticano. E o presidente americano foi o grande ganhador da rodada de apostas.

— Infelizmente não foi dessa vez — justificou o capitão da seleção brasileira após o apito final. — Mas este é apenas o primeiro jogo da fase classificatória. Vamos conseguir a classificação, ajustar os erros e seguir em frente.

Dali a uma semana, a seleção voltaria a campo para o segundo jogo. A imprensa exaltava as qualidades e as melhorias do time em relação às eliminatórias, destacando o fato de Fubanguet Nino Jr. ter entrado em campo e "feito a diferença" no lance em que a bola bateu nele e quase entrou no gol. Uma crônica foi feita em uma transmissão virtual, glorificando o elenco. Nas ruas, o povo, por motivos misteriosos, idolatrava Fubanguet Nino Jr.

Apesar de todo o otimismo inflado, a seleção não se classificou para o mata-mata. Nas ruas, restaram a revolta e as críticas ferozes ao técnico. Mas, no tribunal sagrado das redes sociais, a culpa jamais cairia sobre as costas do camisa 10. Naquela época, a internet desenvolveu uma linguagem própria para proteger o craque. Qualquer passe errado, qualquer tropeço na grama ou isolada de bola era recebido com um coro virtual de "Calma, gente, ele é só um menino!" ou "Não cobrem dele, o nosso garoto está evoluindo!". Aos 28 anos, com as articulações estalando e o extrato bancário explodindo, Fubanguet Nino Jr. era blindado como uma criança indefesa que não podia sofrer a crueldade das críticas.

A CBF, totalmente curvada ao poder dos patrocinadores, era quem operava o moedor de carne. A entidade não escolhia mais técnicos por tática, mas pela capacidade de aceitar ordens do departamento de marketing. Se um treinador ousava sugerir que o "menino" fizesse um teste de esteira ou ficasse no banco, o telefone da sala da comissão técnica tocava. Do outro lado, a associação das Bets e os fabricantes do energético oficial eram curtos e grossos: "Ou o garoto joga os 90 minutos, ou o patrocínio master vira fumaça antes do intervalo". E assim, o técnico engolia o orgulho e assinava a súmula. O tempo passou, o futebol mudou, mas o privilégio permaneceu intacto.

Trinta anos se passaram desde aquela fatídica Copa de 2031. Chegamos à Copa do Mundo de 2061. O mundo agora era hipertecnológico: os jogadores corriam a velocidades sobre-humanas graças a implantes cibernéticos e os juízes eram hologramas programados por algoritmos de apostas em tempo real. Mas, no círculo central do campo, uma silhueta parecia congelada no tempo.

Lá estava ele. Fubanguet Nino Jr., aos 58 anos de idade, batendo o recorde histórico de jogador mais velho a pisar em uma Copa do Mundo.

O semblante, que aos 28 já parecia de um homem de 45 anos tomador de cerveja, agora exibia uma respeitável calvície brilhante, uma barba completamente branca e uma silhueta que lembrava muito a de um simpático aposentado que passa os domingos assando carne na churrasqueira. Ele jogava de calça de moletom ortopédica (patrocinada, claro) e usava uma chuteira especial com amortecimento duplo para os joelhos calejados.

A bola, que trinta anos antes já corria atrás dele com desejo de craque, agora parecia ter pena da artrose do ídolo. Ela quicava mansamente em sua direção, parando exatamente na frente do seu pé direito para que ele não precisasse se esticar.

Nas redes sociais, agora transmitidas diretamente para as lentes de contato dos torcedores, o amor pelo "menino" continuava o mesmo. Quando Fubanguet dava um passe de dois metros para o lado e imediatamente colocava as mãos nos joelhos para puxar o ar, a internet explodia em fofura:

— Olha lá o nosso garoto se esforçando! Coisa mais linda, ele joga com o coração de uma criança! — comentavam os influenciadores virtuais de 2061.

Se um analista esportivo de inteligência artificial sugeria que colocar um senhor de quase 60 anos para marcar um ponta-esquerda androide de 19 anos da seleção da Neo-França era um erro, o cancelamento era instantâneo: "Que absurdo perseguir o menino Fubanguet! Deixem o garoto brincar em paz!" Torcedores acusavam qualquer um que fizesse crítica a Fubanguet de etarismo. Na Betlasca apostas pagavam prêmios para as quedas do herói e até pela possibilidade de infarto em campo.

A CBF comemorava o sucesso de público. Os ingressos para a área VIP, onde os torcedores podiam ver Fubanguet tomar seu remédio para pressão no banco de reservas, custavam fortunas. A Copa do Mundo já não era sobre ganhar ou perder o troféu. Era sobre manter viva a engrenagem do pão e circo digital, garantindo que o menino eterno — agora o vovô da Copa — continuasse gerando cliques, dancinhas lentas e lucros astronômicos para as Bets até o fim dos tempos. 

segunda-feira, 29 de junho de 2026

Crônica da Barbárie racista com Verniz Social



O Olimpo dos Ninguém

A incapacidade cognitiva humana tem muitas faces, mas nenhuma é tão visceral quanto o racismo. Esta semana, ao assistir a uma gravação no canal do Márcio Rolim, testemunhei a materialização exata dessa tese. O registro flagrava um crime explícito, cometido contra duas mulheres pretas amplamente conhecidas pelo grande público devido à sua atuação na grande mídia. O que se revelou ali, contudo, foi muito além da violência verbal ou física imediata; abriu-se uma fresta para o bastidor asqueroso de um ecossistema que apenas os fãs — essa massa deliberadamente cega — se recusam a enxergar.

O fã médio, na contemporaneidade, opera sob um estado de instruída estupidez. Ele eleva o objeto de sua devoção ao grau de ser supremo, destituindo o artista, o influenciador ou o jogador de sua condição humana e cheia de falhas. Como bem diagnosticou Friedrich Nietzsche, "o fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos". Diante da própria incapacidade de criar valores autônomos ou suportar o peso das dúvidas, o homem-rebanho abdica de pensar e se agarra desesperadamente a uma convicção absoluta. No momento em que o ídolo é transformado em um deus puro e perfeito, suas opiniões viram dogmas e ele se torna o detentor da verdade suprema.

Reunida essa massa de fracos que mimetizam força através da idolatria, forma-se um exército pronto para proteger o opressor e, ironicamente, ser explorado por ele. Muitos desses "deuses" não possuem talento algum, mas a busca humana por divindades artificiais e o cultivo da ignorância são tão estimulados que as pessoas aceitam de bom grado dormir em barracas por dias, brigar nas ruas e passar por todo tipo de perrengue para adorar um bezerro de ouro moderno. Para essa massa fanatizada, como dizia Nietzsche, "as pessoas não querem ouvir a verdade porque não querem que suas ilusões sejam destruídas".

Em seu clássico O Homem Medíocre, José Ingenieros alertava sobre o perigo do sujeito que enriquece antes de adquirir cultura e estofo moral: a fortuna precoce em uma mente vazia produz apenas tiranos domésticos. Sem o lastro do pensamento crítico e da empatia, o indivíduo coroado pelo mercado perde o senso de proporção da realidade. Ele passa a acreditar que seu sucesso é fruto exclusivo de um mérito divino ou individual (a armadilha do ego). É o que Theodor Adorno desnudou ao analisar a engrenagem das celebridades na Indústria Cultural: o sistema fabrica "gigantes financeiros" que operam como autênticos anões civilizatórios. Sem cultura prévia, tornam-se marionetes vazias de convicção, moldadas puramente pela conveniência do capital e do aplauso fácil de seus seguidores.

Como no caso clássico de Jeffrey Epstein — o operador de bastidores que não era a estrela de cinema, mas cercava-se de poderosos que se serviam de sua estrutura —, o criminoso da gravação não precisava ser o mais famoso da tela. Ele é o homem dos recursos, do capital, o sujeito rodeado por celebridades que dele dependem para manter o próprio status. Quando o crime racial estourou, o pacto de silêncio e conveniência entrou em ação. Ninguém agiu com crítica aberta a ele; ninguém se posicionou de forma contundente em apoio às vítimas. Quem se calou ou ficou em cima do muro o fez por puro cálculo: o rabo preso e a necessidade de continuar servindo-se do agressor falaram mais alto.

O cinismo atingiu seu ápice nas mensagens de "solidariedade" direcionadas ao criminoso. Foi ali que o efeito Darcy Ribeiro, descrito em O Povo Brasileiro, ganhou vida em cores nítidas. Darcy explicava que o Brasil criou uma válvula de escape para evitar o conflito racial aberto: em vez de segregar radicalmente, a elite permitiu a absorção individual do negro que ascende, desde que ele adote os modos, a cultura e a mentalidade dessa elite branca. O impacto psicológico disso é a separação do "negro-massa". Capturado pela armadilha do ego e para manter seu novo status, o indivíduo que sobe frequentemente passa a reproduzir o preconceito contra os seus, distanciando-se de suas origens.

Por isso, causou asco — mas não surpresa — ver famosos pretos endossando a blindagem do agressor. Sob o manto de uma linguagem terapêutica e cínica, enviaram recados como: "Você está numa caminhada evolutiva e fico feliz que esteja aprendendo". Transformaram um crime de racismo em uma mera oportunidade de aprendizado pedagógico para o opressor, transferindo o holofote da dor da vítima para a "jornada espiritual" do criminoso. Nietzsche alertava que "tudo o que é absoluto pertence à patologia"; a pressa em perdoar o poderoso e relativizar o absoluto da violência é o sintoma mais agudo de uma sociedade doente.

Esse episódio desmascara a farsa do ativismo de vitrine. O engajamento em causas raciais dessa casta de celebridades dá-se unicamente quando é benéfico para suas carreiras e contratos publicitários. São figuras ocas, moldadas pelo oportunismo, prontas para serem preenchidas por qualquer narrativa que gere capital e a vaidade dos aplausos daquela mesma massa romantizada e fanática.

Ao fim desse espetáculo dantesco, a realidade nos cospe na cara a máxima de Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o desejo do oprimido é ser o opressor. No topo da pirâmide, a cor do privilégio e o cheiro do dinheiro compram o silêncio e a cumplicidade daqueles que um dia estiveram na base, mas escolheram prender suas cabeças pensantes à mente dos donos do poder. Apagar a mensagem ou retirar a curtida após a pressão das das pessoas e das marcas não desfaz o pacto; apenas esconde o verniz até que o próximo escândalo renove o ciclo da barbárie.


terça-feira, 23 de junho de 2026

Crônica - O Encontro dos Erros


 

Hoje encontrei um antigo vizinho de porta com o braço engessado, desses que fazem farra todo final de semana. Em sua casa, a festa começa na sexta-feira e termina no limite da noite de domingo, e isso porque ele precisa sair para trabalhar. Costumeiramente, sai ainda sob o efeito do álcool.

— Acho que estou com virose — disse ele ao chefe.

— Acho melhor ir para casa, vá ao médico — respondeu o chefe, desconfiado do sujeito.

O malandro ia dali para o hospital para conseguir o amparo de um atestado médico. Saindo do hospital com a receita e o documento, corria para o mercado, pois ganhara mais algumas horas de farra. Em casa, a patroa não se surpreendia e sempre chamava a atenção do sujeito para a farra e para a moto. Pois é, ele andava de moto e, para chegar mais rápido, a metia na contramão sempre que podia. Aos amigos, gabava-se:

— Nessa vida temos que ser espertos. Acha que eu vou dar a volta no quarteirão se por aqui corto caminho?

Os amigos quase sempre respondiam:

— Cuidado, se a polícia te pegar, vai tomar multa e os caras vão levar sua moto.

— Que nada, sou esperto e fico de olho vivo, olho muito vivo! — dizia, e se acabava de rir da sua própria falta de ética.

De forma alguma se perguntava por que devia seguir as regras que constantemente quebrava; pensava apenas nas facilidades que suas transgressões poderiam lhe trazer. Certa vez, arrumou uma confusão na fila da lotérica. Furou a fila se aproveitando da distração de uma senhora, mas o que ele não percebeu foi que ela estava acompanhada do filho, que de imediato chamou sua atenção:

— Ei, o senhor não tem vergonha na cara não? Furando fila!

Mas, como é natural dos canalhas quando são pegos em seus delitos, ele negou:

— Você está maluco, é? Estou aqui desde antes de vocês chegarem!

— O senhor é um cara de pau — respondeu o outro — e pode voltar para o seu lugar na fila.

Nesse momento, um coro de vozes, inclusive de atendentes, o constrangeu a ponto de ele abandonar a fila e se retirar debaixo de vaias. Mas não acredite o leitor que ele aprendeu. De forma alguma.

A vida é uma loteria: há dias de muita sorte, mas também há dias de muito azar. Nosso amigo, certo dia, quando descia a rua pela contramão, deu de encontrar um de seus vizinhos embriagado, que subia a rua em seu carro e acabou por atropelá-lo. Na rua, formou-se um debate onde todos, de um lado a outro, achavam que tinham razão:

— Esse vagabundo desce sempre a rua na contramão, bem feito para ele! — disse um sujeito que saía de um bar à frente.

— Mas a culpa é desse bêbado — retrucou uma vizinha que não deixava ninguém dormir, pois adorava um som noturno. — Ele não sabe que é proibido beber e dirigir?

— Mas isso não é desculpa — disse outro, soltando uma fumaça fedorenta do seu pod. — Todo mundo sabe que não se pode descer a rua, é contramão.

— E encher a cara de cachaça e dirigir feito um louco pode? — disse uma vizinha viciada em jogos on-line. — Fico indignada com uma coisa dessas.

Nesse momento, chegam a polícia, uma ambulância e, logo depois, o guincho. Um foi levado ao hospital e o bêbado foi conduzido à delegacia. Ambos os veículos foram apreendidos. Na delegacia, o motorista embriagado, além das multas, seria autuado pelo crime de embriaguez ao volante. Um policial, que cumpria medidas administrativas por ter baleado um cidadão e era investigado por envolvimento com cobrança de propina, lhe dava um belo sermão:

— O senhor não tem vergonha não? Um homem na sua idade fazer uma coisa dessas... O sujeito, um cidadão de bem, está lá no hospital todo arrebentado. O senhor é um canalha.

O motorista, que naquelas alturas já estava menos sob o efeito do álcool, permanecia de cabeça baixa e respondeu ao policial:

— Mas senhor… ele descia a rua na contramão, não vi ele…

— Claro que não viu — retrucou o policial. — Estava bêbado! Não justifique seu erro com o erro dos outros. Faz a merda e põe a culpa nos outros.

No hospital, o paciente, cheio de arranhões e com muita dor, recebia atendimento. O médico que o atendia — um candidato a vereador que sempre "dava um jeitinho" para quem necessitava de um atestado médico ou para passar uma cirurgia à frente dos demais pacientes — lhe dizia que o braço estava quebrado e que teria que engessar. Pensa o leitor que o acidentado ficou triste com a notícia? Claro que não. Depois de tomar os remédios para a dor durante uns dias, a farra recomeçou. Na sua casa, em meio ao som alto, eles discutiam inflamados sobre a corrupção em Brasília, e tudo segue normalmente…

Diante dessa distopia, assistindo a esse espetáculo diário de pequenos delitos justificados pelo erro alheio, imagino eu... como seria viver num mundo em que as pessoas entendessem a razão das coisas, e não concordassem com a crítica ao outro sem antes olhar para dentro de si mesmas?




domingo, 21 de junho de 2026

Crônica - O Aquário idiotizante de Domingo

 


Crónicas:

O Aquário idiotizante de Domingo

O domingo é realmente um dia deprimente para quem se deixa levar pelas distrações desse aquário chamado sociedade em que fomos postos. Sentado no sofá de casa, resolvi ligar o televisor. Sei que devia sair para algo mais produtivo, como uma caminhada ou ler um bom livro, mas peguei o controle remoto e acionei o botão sem pesar; talvez já esteja sob o efeito da idiotização a que as pessoas são submetidas. Pensei… é, ainda penso.

Tentei acompanhar o que passava, mas logo  fiquei inclinado a desligar assim que o apresentador fez a primeira piada:

"Fulana falou sobre como tal sujeito é incrível e maravilhoso. Hum, só isso, Fulana? Ou rolou mais alguma coisa?"

Todos riram, não sei se por vontade própria, ou por obrigação de uma placa, ou pelo riso dos famosos que  estavam no palco. Em casa, muito provavelmente, muitos também seguiram o coro de risos. Parece uma fala tão boba, mas é incrível como, naquele momento, me pareceu que o tempo havia regredido e que eu estava novamente em 1992. Não se tratava de um sentimento saudosista, de nostalgia, nem de uma memória afetiva; senti que 40 anos é pouco tempo para que as pessoas de uma sociedade mudem seus gostos. Digo isso porque, se ainda usam a conotação sexual como forma de fazer com que as pessoas fiquem ligadas à televisão, é porque elas gostam desse tipo de tentativa de piada que adentra a particularidade do outro.

Mas, se o leitor acha que desliguei, devo decepcioná-lo: mantive ligada. Na sequência, o tal apresentador anunciou um "bom samaritano" que ajudava umas pessoas a partir de um assistencialismo  que usa o esporte como meio.

— Ele é um cara incrível, meu — disse o apresentador — ajuda muita gente. — Apesar das dificuldades, tenta ajudar esses jovens a realizar seus sonhos — respondeu o bom samaritano. — E algum dos jovens que você ajudou já chegou a algum grande clube? — perguntou o apresentador. — Não, mas quem sabe...

O apresentador mal esperou o sujeito continuar; sabe bem ele que viver de sonhos não paga a conta. Mas, estimular o eterno sonho fazendo esse tipo  de discurso de autoajuda, sim melhora a imagem e dá muito muito dinheiro para ele próprio, ele completou:

— Eu sempre digo: o esporte muda vidas, meu.

Pensei... realmente. Aí se esconde um medo de que o sujeito se revolte e não esteja bem enquadrado e ajustado para não dar trabalho.

Nesse momento, desliguei a televisão. Mas os senhores se acalmem: não se trata de um protesto contra um projeto de distribuição de renda; na verdade, trata-se da constatação de que o que se desejava com aqueles pobres era a espetacularização, pois não ouvi sequer o sujeito falar em justiça social. Acho que isso não deve dar ibope, ainda mais… entre os anunciantes.

Desligar a televisão é o ato mais fácil. O difícil, e que levo comigo toda segunda-feira para a sala de aula, é tentar desprogramar esse olhar que se acostumou a ver o outro como um espetáculo ou um favor, e não como um sujeito de direitos.

O domingo acaba, mas a idiotização, essa, é um turno integral.