"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.

domingo, 12 de julho de 2026

Crônica - A grande copa



A Copa de 2031 teve sua data alterada pela associação dos presidentes imperialistas, pela associação das Bets, pelas emissoras de televisão hegemônicas e pela recém-criada associação das emissoras independentes, que juntas tiveram lá seus motivos para tomar essa decisão. Obviamente, o importante é termos a tão aguardada Copa do Mundo — que é nossa, que é de todo mundo —, mas que certos chatos teimam em chamar de política do "pão e circo". Claro que classificar esse espetáculo grandioso, uma paixão mundial, como pura manipulação é um exagero. Claro que é!

— Hoje a seleção faz o seu jogo de estreia! — anunciou o repórter de uma famosa emissora. — Jogaremos contra a seleção do Vaticano, que participa da Copa do Mundo pela primeira vez. Na BetLasca, as apostas estão em 12 para 1. Temos, assim, o Vaticano como o grande azarão. Volto com você, Dissimulado.

— Está aí então. Obrigado, Pauciva! Pauciva Andrade trazendo as notícias direto do campo — respondeu Dissimulado. — É, meus amigos, os nossos apostadores estão confiando na nossa seleção.

O jogo começou. Nos primeiros 15 minutos, a seleção brasileira fez o primeiro gol contra o time de padres franciscanos do Vaticano, mas, após uma ligação do Papa, o gol foi anulado. Passados mais 15 minutos do jogo reiniciado, a associação das Bets ligou e o gol foi validado. O torcedor em casa ia à loucura com as reviravoltas daquela partida. Os narradores, enlouquecidos, exaltavam as emoções do confronto. Por fim, o gol foi mantido.

O técnico brasileiro decidiu, então, colocar em campo o jogador mais conhecido da internet: Fubanguet Nino Jr. Um craque com grande experiência que, apesar de ostentar o semblante de um homem de 45 anos tomador de cerveja, tinha apenas 28 anos e milhões na conta — e eram esses milhões que garantiam os seus parceiros comerciais. Dentro de campo, a bola corria atrás dele; a bola tinha desejo de craque, mas o craque não tinha desejo de bola. Fubanguet Nino Jr. estava há cinco anos sem jogar, mas o povo ainda acreditava no herói, esperando que, em algum momento, ele fizesse uma gracinha ou uma dancinha que nos levaria ao título.

O jogo seguiu até que, em uma tentativa de invasão à grande área, foi marcado pênalti para o Vaticano. O Bispo Inquisition Santos foi o escolhido para a cobrança. O pênalti foi convertido e a partida seguiu morna até os 47 minutos do segundo tempo, momento em que a associação das Bets finalmente teve a certeza do resultado. A decisão saiu: segundo pênalti para o Vaticano. E o presidente americano foi o grande ganhador da rodada de apostas.

— Infelizmente não foi dessa vez — justificou o capitão da seleção brasileira após o apito final. — Mas este é apenas o primeiro jogo da fase classificatória. Vamos conseguir a classificação, ajustar os erros e seguir em frente.

Dali a uma semana, a seleção voltaria a campo para o segundo jogo. A imprensa exaltava as qualidades e as melhorias do time em relação às eliminatórias, destacando o fato de Fubanguet Nino Jr. ter entrado em campo e "feito a diferença" no lance em que a bola bateu nele e quase entrou no gol. Uma crônica foi feita em uma transmissão virtual, glorificando o elenco. Nas ruas, o povo, por motivos misteriosos, idolatrava Fubanguet Nino Jr.

Apesar de todo o otimismo inflado, a seleção não se classificou para o mata-mata. Nas ruas, restaram a revolta e as críticas ferozes ao técnico. Mas, no tribunal sagrado das redes sociais, a culpa jamais cairia sobre as costas do camisa 10. Naquela época, a internet desenvolveu uma linguagem própria para proteger o craque. Qualquer passe errado, qualquer tropeço na grama ou isolada de bola era recebido com um coro virtual de "Calma, gente, ele é só um menino!" ou "Não cobrem dele, o nosso garoto está evoluindo!". Aos 28 anos, com as articulações estalando e o extrato bancário explodindo, Fubanguet Nino Jr. era blindado como uma criança indefesa que não podia sofrer a crueldade das críticas.

A CBF, totalmente curvada ao poder dos patrocinadores, era quem operava o moedor de carne. A entidade não escolhia mais técnicos por tática, mas pela capacidade de aceitar ordens do departamento de marketing. Se um treinador ousava sugerir que o "menino" fizesse um teste de esteira ou ficasse no banco, o telefone da sala da comissão técnica tocava. Do outro lado, a associação das Bets e os fabricantes do energético oficial eram curtos e grossos: "Ou o garoto joga os 90 minutos, ou o patrocínio master vira fumaça antes do intervalo". E assim, o técnico engolia o orgulho e assinava a súmula. O tempo passou, o futebol mudou, mas o privilégio permaneceu intacto.

Trinta anos se passaram desde aquela fatídica Copa de 2031. Chegamos à Copa do Mundo de 2061. O mundo agora era hipertecnológico: os jogadores corriam a velocidades sobre-humanas graças a implantes cibernéticos e os juízes eram hologramas programados por algoritmos de apostas em tempo real. Mas, no círculo central do campo, uma silhueta parecia congelada no tempo.

Lá estava ele. Fubanguet Nino Jr., aos 58 anos de idade, batendo o recorde histórico de jogador mais velho a pisar em uma Copa do Mundo.

O semblante, que aos 28 já parecia de um homem de 45 anos tomador de cerveja, agora exibia uma respeitável calvície brilhante, uma barba completamente branca e uma silhueta que lembrava muito a de um simpático aposentado que passa os domingos assando carne na churrasqueira. Ele jogava de calça de moletom ortopédica (patrocinada, claro) e usava uma chuteira especial com amortecimento duplo para os joelhos calejados.

A bola, que trinta anos antes já corria atrás dele com desejo de craque, agora parecia ter pena da artrose do ídolo. Ela quicava mansamente em sua direção, parando exatamente na frente do seu pé direito para que ele não precisasse se esticar.

Nas redes sociais, agora transmitidas diretamente para as lentes de contato dos torcedores, o amor pelo "menino" continuava o mesmo. Quando Fubanguet dava um passe de dois metros para o lado e imediatamente colocava as mãos nos joelhos para puxar o ar, a internet explodia em fofura:

— Olha lá o nosso garoto se esforçando! Coisa mais linda, ele joga com o coração de uma criança! — comentavam os influenciadores virtuais de 2061.

Se um analista esportivo de inteligência artificial sugeria que colocar um senhor de quase 60 anos para marcar um ponta-esquerda androide de 19 anos da seleção da Neo-França era um erro, o cancelamento era instantâneo: "Que absurdo perseguir o menino Fubanguet! Deixem o garoto brincar em paz!" Torcedores acusavam qualquer um que fizesse crítica a Fubanguet de etarismo. Na Betlasca apostas pagavam prêmios para as quedas do herói e até pela possibilidade de infarto em campo.

A CBF comemorava o sucesso de público. Os ingressos para a área VIP, onde os torcedores podiam ver Fubanguet tomar seu remédio para pressão no banco de reservas, custavam fortunas. A Copa do Mundo já não era sobre ganhar ou perder o troféu. Era sobre manter viva a engrenagem do pão e circo digital, garantindo que o menino eterno — agora o vovô da Copa — continuasse gerando cliques, dancinhas lentas e lucros astronômicos para as Bets até o fim dos tempos. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Sério que a violência contra professores te toca? Leia todo o artigo e depois pense qual sua parte nisso.

 


A Segregação do Professor

Nos últimos anos, temos testemunhado um crescimento alarmante nos casos de violência contra professores. Esse fenômeno é o resultado, a longo prazo, de ataques sistemáticos de agentes políticos contra as escolas e os docentes, somado a uma distorção social sobre a criação de filhos. No fim, esse cenário reverbera em estupidez e agressividade direcionadas justamente a quem aponta o caminho para fora da ignorância.

Em uma sociedade que valoriza a superficialidade e a ignorância, cria-se uma trincheira para refutar qualquer um que pretenda mudar esse quadro. É preciso reconhecer que ninguém constrói o conhecimento inteiramente sozinho; o ambiente molda o indivíduo. Existem grupos e interesses reais — e não teorias da conspiração envolvendo extraterrestres ou sociedades secretas — que lucram com a passividade intelectual da população.

Esse processo de desvalorização não é novo. A história demonstra que, para controlar uma sociedade, o primeiro passo de regimes autoritários e extremistas é atacar a escola e os professores. Afinal, cidadãos privados de senso crítico são mais fáceis de manipular. Os recortes históricos a seguir ilustram como esse mecanismo operou ao longo do tempo:

Linha do Tempo do Anti-intelectualismo

  1. A Queima de Livros e Enterro de Eruditos (Dinastia Qin, China - 213 a.C.): O Imperador Qin Shi Huang, buscando centralizar o poder absoluto, ordenou a destruição de textos clássicos (especialmente os de Confúcio) e mandou enterrar vivos centenas de intelectuais que defendiam tradições contrárias à sua visão de Estado.

  2. A Inquisição Católica e a Caça aos Hereges (Europa - Séculos XII a XIX): O Tribunal do Santo Ofício utilizou a censura, a tortura e execuções na fogueira (como a do filósofo Giordano Bruno) para suprimir o conhecimento científico que desafiava os dogmas religiosos e o poder absolutista.

  3. A Revolução Cultural Chinesa (China - 1966 a 1976): Mao Tsé-Tung instigou hordas de jovens da Guarda Vermelha a destruir o patrimônio histórico e a perseguir professores e artistas, rotulando a erudição como uma ameaça burguesa ao regime.

  4. A Queima de Livros na Alemanha Nazista (Alemanha - 1933): O regime de Adolf Hitler promoveu fogueiras públicas para destruir obras de autores judeus, pacifistas e comunistas, visando depurar a sociedade de ideias contrárias à ideologia ariana.

  5. O Macarthismo (Estados Unidos - Década de 1950): Durante o "Pânico Vermelho" (Red Scare), o senador Joseph McCarthy liderou uma perseguição ideológica que resultou na demissão e no silenciamento de professores universitários, cientistas e artistas sob suspeita de simpatias comunistas.

  6. A Perseguição na Ditadura Militar Brasileira (Brasil - 1964 a 1985): O regime militar perseguiu, prendeu e cassou centenas de professores e cientistas por meio do Ato Institucional Número 5 (AI-5), esvaziando o pensamento crítico da educação pública para impor controle social.

  7. O Regime do Khmer Vermelho (Camboja - 1975 a 1979): Sob a liderança de Pol Pot, o regime executou sistematicamente professores, médicos e intelectuais — inclusive pessoas que usavam óculos, visto como um sinal de intelectualidade — para forçar a criação de uma sociedade agrária utópica.

  8. A Destruição de Bibliotecas na Guerra da Bósnia (Iugoslávia - 1992 a 1996): Durante a limpeza étnica, forças nacionalistas bombardearam a Biblioteca Nacional e Universitária de Sarajevo, em uma tentativa deliberada de erradicar a herança cultural e o conhecimento plural da região.

  9. A Revolução Francesa e o Terror Jacobino (França - 1793 a 1794): Durante o Reino do Terror, cientistas proeminentes, como o químico Antoine Lavoisier, foram guilhotinados, demonstrando que o extremismo político e a irracionalidade não toleram a moderação e o avanço da ciência.

  10. A Campanha Anti-Intelectual Soviética (URSS - Décadas de 1930 a 1950): Sob o governo de Josef Stalin, intelectuais, escritores e historiadores foram enviados para campos de trabalho forçado (Gulags), impondo uma versão oficial e rígida da ciência e da história.

Não é de hoje que perseguições e violência contra intelectuais ocorre. Quando um grupo político quer legitimar-se no poder seja ele do extremo político que for. Quando as pessoas são atormentadas pelo pânico moral e se tornam estúpidas e incapaz de se guiar pela razão, o passado se repete. As práticas relatadas nos fatos históricos não é algo do passado ele continua no Brasil contemporâneo 

Os Principais Exponentes das Narrativas

Jair Bolsonaro: Principal figura política a projetar o termo "kit gay" nacionalmente. A expressão foi usada de forma pejorativa para apelidar o projeto "Escola Sem Homofobia" (desenvolvido em 2010 pelo Ministério da Educação com foco na capacitação de professores contra o preconceito, mas que nunca foi distribuído nas escolas). Bolsonaro associou o projeto a livros de educação sexual estrangeiros e alegou reiteradamente que as escolas brasileiras visavam "sexualizar crianças" ou "incentivar o homossexualismo". 

Nikolas Ferreira: Deputado federal expressivo no movimento conservador. Alinha-se diretamente ao discurso contra o que chama de "ideologia de gênero" e "doutrinação marxista" nas escolas. Defende projetos que limitam a abordagem de questões de sexualidade e diversidade por professores.

Silas Malafaia: Pastor evangélico que teve papel ativo na disseminação dessa narrativa. Durante campanhas eleitorais, usou palanques e redes sociais para associar partidos de esquerda e o corpo docente a cartilhas que destruiriam a "família tradicional", atuando como um dos grandes impulsionadores do engajamento digital em torno do tema.

Pablo Marçal: O empresário e influenciador também utilizou as redes sociais para reproduzir e impulsionar vídeos e conteúdos que associavam adversários políticos e programas de governo à suposta distribuição do falso "kit gay".

Movimento Escola Sem Partido (Miguel Nagib): Embora não focado estritamente na pauta LGBTQIA+, o movimento fundado por Nagib foi o grande catalisador da tese de que o professor é um "doutrinador ideológico". O grupo estimulava alunos a filmarem professores em sala de aula sob o pretexto de combater o "marxismo cultural".

O Cenário Educacional no Brasil Contemporâneo

1. A Anatomia do Abandono (Síntese dos Alertas Nacionais e Globais)

APEOESP e SciELO Brasil: Apontam o adoecimento docente severo e a violência cotidiana como frutos diretos da deterioração estrutural, em que a agressividade física reflete a perda do respeito à autoridade do saber.

CNTE: Denuncia o avanço de movimentos de censura, patrulhamento ideológico e vigilância dentro de sala de aula, o que amordaça a liberdade de cátedra.

Relatórios da OCDE: Evidenciam que o Brasil lidera rankings globais de violência contra professores, destacando que os docentes perdem mais de 20% do tempo de aula tentando manter a ordem em classes superlotadas, além de receberem quase metade da remuneração de seus pares internacionais.

Relatórios da ONU: Alertam para as violações de direitos humanos decorrentes do cerceamento à autonomia pedagógica e do desmonte da educação antirracista e inclusiva.

2. O Mecanismo Técnico: Novo Gerencialismo e Metas de Fachada

A precarização não ocorre por mera incompetência administrativa, mas por um projeto político-econômico moldado pelo Novo Gerencialismo. Essa filosofia importa a lógica empresarial para o setor público, focando estritamente em indicadores quantitativos e no corte de gastos (austeridade), ignorando a qualidade real do ensino:

A "Fábrica" de Alunos: O foco gerencialista está em bater metas estatísticas de aprovação e fluxo escolar para inflar índices oficiais, mesmo que os estudantes concluam os ciclos semi-analfabetos.

O Professor como Operário: Retira-se a autonomia do docente, transformando-o em um mero reprodutor de apostilas padronizadas, cobrado exaustivamente pelo preenchimento de burocracias virtuais, planilhas e plataformas digitais.

3. A Instrumentalização Política

Objetivos Eleitoreiros

O esvaziamento da educação serve como munição para palanques políticos que lucram diretamente com a polarização social:

Criação de Inimigos Imaginários: Em vez de debater a falta de verbas ou o piso salarial, discursos populistas elegem o professor como um "doutrinador ideológico" a ser combatido.

Soluções Espetaculosas: Plataformas eleitorais priorizam medidas cosméticas e punitivas (como câmeras em salas e militarização de fachadas) que geram engajamento digital e votos, mas mascaram a persistente falta de investimento estrutural.

Eleições chegando
Chega de discursos românticos sobre a educação
É hora de parar com o apelo tolo para político por "mais educação". Não se pede isso político isso se ensina aos filhos que devem aprender limites e ouvirem "não". Como eleitor, você deve dizer: Exijo uma educação de qualidade baseada no respeito real ao trabalho docente e ao aprendizado do meu filho, longe de bobagens românticas que não levam a nada.
Escravo é quem trabalha por amor, palavras doces e tapinha nas costas; tolo é quem se contenta com o discurso vazio de que o professor é o "formador de todas as outras profissões". Precisamos respeitar a nós mesmos e encarar com seriedade e firmeza toda espécie de canalha que emburrece as pessoas para usá-las— e não com sentimentalismo — a realidade que sucateia a nossa profissão.

domingo, 5 de julho de 2026

O Progresso para Ninguém


A Inutilidade do Excesso e o Sequestro da Existência

A equação da vida humana, quando despida dos artifícios da modernidade, é de uma simplicidade quase poética. Do ponto de vista estritamente biológico e existencial, a nossa sobrevivência e plenitude dependem de uma tríade fundamental: o alimento que nutre o corpo, o descanso que regenera a mente e o afeto que justifica a jornada. Não há complexidade nisso. A terra, em seu estado natural, sempre foi perfeitamente capaz de fornecer o sustento; os ciclos do sol sempre souberam ditar o repouso; e a nossa natureza gregária sempre nos inclinou ao cuidado mútuo. Diante dessa verdade elementar, a estrutura do mundo contemporâneo deixa de parecer um ápice civilizatório e passa a se revelar como um completo absurdo.

Se tudo o que precisamos cabe no limite do que é vivo, para que serve a escala monumental da nossa destruição? Assistimos, anestesiados, à pilhagem sistemática do planeta: montanhas inteiras são devoradas por frentes de mineração, oceanos e subsolos são perfurados até o esgotamento em busca de petróleo, e biomas inteiros são reduzidos a cinzas e pasto. Pior: travam-se guerras geopolíticas sangrentas, sacrificando vidas humanas reais, para disputar o controle desses mesmos recursos finitos. O paradoxo é grotesco: destrói-se a base da vida (a água, o ar, o solo) para alimentar uma engrenagem que produz o supérfluo. Financia-se a morte em nome de uma riqueza que ninguém pode comer, beber ou abraçar.

Essa lógica do excesso atinge o ápice do ridículo no nosso cotidiano mais banal. Nós alcançamos o estágio de sofisticação industrial onde o óbvio precisa ser processado para ter valor. Criamos indústrias bilionárias de refrigerantes e sucos de caixinha repletos de xaropes, conservantes e corantes artificiais, ignorando deliberadamente que a laranja já nasce perfeita, pronta e embalada pela própria natureza no galho de uma árvore. Substituímos o essencial pelo simulacro. Fomos ensinados a rejeitar a abundância simples da terra para nos tornarmos dependentes da escassez artificial do mercado. Criou-se a necessidade do inútil.

Esse cenário não brotou do acaso; ele é o resultado de um projeto de dominação histórica. Em algum momento da nossa trajetória, as terras que eram comuns a todos foram cercadas, privatizadas e transformadas em propriedades e ativos financeiros. Fomos expulsos do quintal do mundo e empurrados para as linhas de montagem, para os escritórios e para as telas. O sistema não apenas confiscou os meios de subsistência autônoma, mas operou um sequestro cultural: ele nos convenceu, por meio da força, medo, publicidade e do discurso do desenvolvimento técnico, de que este modo de vida frenético, ansioso e poluído era o "progresso". Disseram-nos que este era o melhor dos mundos possíveis.

A grande farsa do século XXI, no entanto, já não consegue se sustentar sob o peso das crises climáticas e da falência da saúde mental global. Inegável inclusive para quem mais desmata, pois o Agro negócio já pede seguro para se proteger dos prejuízos que o El ninō irá causar em 2026. A pergunta que ecoa diante de cada floresta derrubada, de cada barril de petróleo extraído e de cada prateleira lotada de produtos plásticos descartáveis é urgente e incontornável: este progresso foi o melhor para quem? Certamente não para a humanidade que adoece trabalhando para consumir o que não precisa, e muito menos para o planeta que sangra para sustentar o lucro de uma minoria invisível. É hora de romper o feitiço do consumo e lembrar que o necessário nunca dependeu da destruição. Será que os benefícios que são de fato benefícios? Será que a ampliação da espectativa de vida dos seres humanos não é inversamente proporcional a expectativa de vida do planeta como o conhecemos? Será que valeu a pena e irá continuar valendo a pena trocar o concreto pelo abstrato?

4° - Influência na escrita do meu livro - Admirável Mundo Novo


Apesar de aparecer como quarto livro, Admirável Mundo Novo foi o segundo livro que li dos quatro apresentados aqui. Uma distopia cientifissista surpreende e que sem sobra de dúvidas deve ser leitura obrigatória, mas vamos ao resumo: Publicado em 1932 por Aldous Huxleyé uma das maiores obras distópicas da literatura mundial. O livro apresenta uma sociedade global futura (por volta do ano 2540) controlada por um Estado autoritário e cientificista. Nesse "mundo perfeito", a infelicidade, a guerra, a velhice e a pobreza foram eliminadas. Contudo, a estabilidade e a "felicidade" são mantidas através da abolição de pilares fundamentais da humanidade: a família, a religião, a arte, a ciência autêntica, a literatura e a liberdade individual. O sistema funciona através de pilares de controle extremo estruturados da seguinte forma:

Reprodução e Condicionamento: Os humanos já não nascem de gestações naturais. São criados em incubadoras e geneticamente modificados e divididos em cinco castas — de Alfa (os intelectuais e líderes) até Épsilon (trabalhadores braçuais). Desde a incubação, eles passam por condicionamento físico, intelectual e psicológico. Durante o sono, recebem mensagens repetitivas (hipnopedia) que moldam seus desejos e aversões para aceitarem sua posição social sem questionar.

A "Felicidade" Obrigatória: O Estado promove o prazer imediato, a promiscuidade ("todos são de todos") e o consumo incessante. A dor e a tristeza são erradicadas graças ao Soma, uma droga legalizada que fornece alívio instantâneo e escapismo da realidade.

Os Protagonistas: A narrativa acompanha Bernard Marx, um Alfa que se sente inadequado e isolado por ser menor que os padrões de sua casta, e Lenina Crowne, uma mulher perfeitamente condicionada que aceita o sistema cegamente. Juntos, eles viajam para uma Reserva de Selvagens, onde encontram John, um jovem que nasceu de forma natural na reserva e cresceu lendo as obras de William Shakespeare. 

O Choque de Realidades: Fascinado pelo "Admirável Mundo Novo" que sua mãe sempre elogiou, John é levado para a civilização. No entanto, sua visão baseada na literatura clássica o leva a entrar em profundo conflito com o vazio moral, a superficialidade e a falta de emoções genuínas dessa sociedade. Ele questiona o Diretor e o Administrador Mundial, Mustafa Mond, argumentando que o sacrifício da liberdade em troca da ausência de dor é um preço alto demais e que as pessoas têm o "direito a ser infelizes".

Ao contrário de 1984 de George Orwell — onde o controle ocorre pelo medo e pela violência —, Huxley alerta para uma sociedade que é controlada e escravizada pelo excesso de prazeres, pela alienação e pela tecnologia, muito parecido com o nosso mundo tecnológico contemporânea. Essa busca constante por diversão e pela anestesia da consciência abre caminho para a seguinte reflexão, vivemos numa utopia ou numa distopia?

3° - Influência na escrita do meu livro: Ensaio Sobre a Cegueira.



O clássico "Ensaio sobre a Cegueira", lançado em 1995 pelo escritor português
José Saramago, é uma das obras distópicas mais aclamadas da literatura mundial, sendo o principal pilar literário que o levou a conquistar o Prêmio Nobel de Literatura em 1998. Li o livro para a montagem da peça de teatro "Cegueira In Progress" adaptação livre, com a direção de   Cleber Lima  , a peça foi encenada no teatro da    Unifaccamp em campo limpo paulista, pelo coletivo do qual faço parte como ator:  Núcleo 13 de artes dramáticas . A narrativa aborda uma epidemia súbita e inexplicável de "cegueira branca" (descrita como um mar de leite), que acomete um motorista no trânsito e se espalha rapidamente por toda a cidade. A obra ganhou uma renomada Adaptação Cinematográfica internacional em 2008, com coprodução do Brasil, dirigida pelo cineasta brasileiro Fernando Meirelles e estrelada por Julianne Moore e Mark Ruffalo.

Abaixo estão os pontos centrais da história e o contexto da obra:

O Enredo e a Quarentena

Em vez de uma escuridão total, os afetados pela doença perdem a visão imersos em uma névoa de luz branca. Temendo o contágio em massa e o colapso social, o governo decide isolar as primeiras vítimas e seus contactantes em um Antigo manicômio abandonado.

O grande diferencial da trama é a Mulher do Oftalmologista. Ela é a única pessoa da cidade que não perde a visão, mas finge estar cega para poder acompanhar seu marido. Ao longo da história, ela atua como os olhos e a consciência da humanidade dentro do confinamento, testemunhando a rápida degradação da moralidade, a escassez de comida e a escalada da violência à medida que o local vira um verdadeiro laboratório de instintos primários.

Metáfora da Cegueira

A obra usa a doença física apenas como uma alegoria para a falência moral e a cegueira de consciência da sociedade. Em situações de caos e sobrevivência, as máscaras sociais e os privilégios (já que os personagens não têm nomes, sendo chamados apenas por suas características como "o médico", "a rapariga dos óculos escuros") caem, revelando o egoísmo, a crueldade, mas também o heroísmo e a solidariedade inerentes ao ser humano. 

O Estilo Escrito de Saramago

O livro é famoso por sua estrutura textual peculiar, que pode causar estranheza inicial no leitor. Saramago utiliza frases e parágrafos longos, com pontuação não convencional, e omite travessões nos diálogos, fundindo a fala dos personagens e os pensamentos da narradora em um fluxo contínuo. Isso intensifica a sensação de angústia, claustrofobia e urgência. 

Além da obra fiz a leitura do livro dois indicado pelo autor e é uma continuação, cujo título é: Ensaio Sobre a Lucidez, o livro conta com os personagens principais do livro um e alguns novos e o final é surpreendente. Ambos os livros são obras espetaculares e que recomendo a leitura uma após a outra como indicado pelo autor. Além destas obras, também li: O Evangelho Segundo Jesus Cristo e a Caverna. Todas leituras estimulantes, além de uma escrita única. Todas do mesmo autor. O que mais impressiona em Saramago, é que sinto sempre ao ler ou produzir para o teatro, é que seus livros nunca são apenas histórias. Eles funcionam como espelhos desconfortáveis da nossa própria realidade, forçando uma reflexão contínua a cada nova leitura.

https://clubedeautores.com.br/livro/sabios-x-fatalistas

sábado, 4 de julho de 2026

Crônica - O Fubanga


O fubangismo está sempre produzindo ou reproduzindo o atraso. Vejam só o caso do Delvison Fubanga, que ficou rico fazendo vídeos sobre o seu dia a dia na vila do atraso. Quando as coisas melhoraram, seus vídeos passaram a ser sobre as coisas que ele comprava. Delvison agora não era mais um qualquer. Tornara-se uma figura pública, um exemplo de sucesso. Sua profissão era a de influenciar as pessoas a ver as coisas que ele postava, para que essas pessoas pudessem passar o dia todo sendo influenciadas pelas coisas que ele dissesse que elas deviam fazer para influenciar, para que a influência pudesse ser influenciável. Acho que vocês, leitores, devem ter entendido.

Após algum tempo, Delvison Fubanga conseguiu patrocinadores. Agora podia influenciar os influenciáveis a comprar vários produtos, e ganhou muito dinheiro. Porém, os vídeos de dancinha, as mansões, os carros importados, as viagens e as festas já não eram suficientes para manter o engajamento, competir com os outros pelo patrocínio e monetizar. Era preciso mais. Era necessário causar impacto.

— Equipe, temos que pensar em algo para aumentar as visualizações — disse Fubanga ao seu staff. — Está todo mundo criando reality. Que tal a gente fazer um reality? Quero ideias…

— Que tal a gente organizar um campeonato de xadrez? — sugeriu o roteirista. — Daí damos um prêmio alto para o vencedor.

— Isso não dá like, ninguém quer saber disso! Tá louco, é? — cortou Fubanga. — Estou com uma ideia muito melhor. Que tal a gente pegar três dos nossos seguidores e colocá-los para realizar algumas provas em troca de dinheiro?

— Boa ideia, chefe! — disse o roteirista.

Gravaram um vídeo e postaram em suas redes. Para participar, era necessário que o sujeito provasse que estava disposto a qualquer coisa para ficar próximo ao seu influenciador — já que era um influenciável.

A primeira eliminatória foi a "Travessia do Amor". A prova consistia em o sujeito nadar por 100 metros no Rio Tietê até o bueiro onde, supostamente, o esgoto da casa de Delvison Fubanga desaguava. Dezenas de seguidores compareceram para tentar a vaga. Como apenas os dois primeiros se qualificariam para o reality no sítio, os demais puderam tentar uma repescagem na segunda prova. Nessa, a equipe de Fubanga não estaria presente, e o participante deveria ser rápido: consistia em gravar um vídeo fazendo a brincadeira chamada "rolar carniça", na qual o sujeito devia encontrar um bicho morto e rolar nele, passando a podridão pelo corpo.

Dois dias depois, Fubanga veio a público em uma live para mostrar os vídeos. Ele ria e se divertia com a cara de asco e a ânsia de vômito dos influenciáveis e o terceiro participante foi escolhido. O público se dividia entre os que tiravam sarro e alguns críticos que achavam aquilo uma exploração dos pobres coitados. Mas Fubanga rebateu as críticas:

— As pessoas são livres para fazer o que quiserem. Eu não estou forçando ninguém!

Os três classificados finais foram para o sítio de Fubanga. Lá, deveriam participar das provas principais. Podiam desistir a hora que quisessem, mas, a cada etapa realizada, o participante ganhava cem reais. Assim que as regras foram anunciadas, um dos três participantes desistiu na hora. Fubanga, que apresentava ao vivo, disparou:

— Mas é mole mesmo… É por isso que é pobre, desse jeito não vai chegar a lugar nenhum, meu filhote! Vai embora, covarde, fraco!

Os outros dois participantes concordaram com o chefe e vaiaram o colega, bem como os comentários que o lincharam virtualmente. Um dos participantes disse: "Como pode perder uma oportunidade dessas?". E o outro concordou: "Pois é".

— Vamos à primeira prova! — anunciou Fubanga. — A primeira prova é "Saindo da Fossa". A fossa da chácara foi aberta. Quem mergulhar nela e conseguir sair primeiro ganha o ponto e os cem reais. Estão prontos?

Os dois competidores disseram que sim. Quando Fubanga deu o sinal, eles saíram correndo e mergulharam nos dejetos. Como o que estava lá dentro, além do cheiro terrível, era extremamente escorregadio, as câmeras filmaram uma verdadeira patacoada. Eles se batiam na tentativa desesperada de subir, enquanto Fubanga e sua equipe, à distância, divertiam-se pelo alto-falante, estimulando a disputa e zombando da ânsia de vômito dos rapazes. No fim, um deles conseguiu escalar e foi o ganhador. Havia uma série de duchas para os participantes se limparem. As redes eufóricas loucas por mais comentavam e curtiam. As pessoas ansiosas desatentas com a própria vida assistiam e comentavam várias vezes o vídeo.

No dia seguinte, a plateia online já esperava o circo de horrores iniciar, com anúncios e propagandas sendo exibidos antes do espetáculo. Fubanga surgiu, cumprimentou os seguidores e apresentou o próximo desafio:

— Vamos à segunda prova! Hoje vocês terão que ser muito rápidos. Durante a semana, eu e minha equipe comemos muito bem aqui na chácara, e as sobras foram jogadas fora… Quer dizer, foram jogadas na pilha de lixo à frente dos senhores! Quem conseguir encontrar três dos restos indicados no cardápio da semana e comer, fica com o prêmio. Vejam só, hein, gente? Teve dia que comemos caviar! — riu Fubanga. — Prontos? Valendo!

E lá foram os influenciáveis comer do tão sonhado "lixo de luxo". Terminada a prova, o prêmio foi entregue ao vencedor da rodada. Fubanga, obviamente, tripudiou:

— Muito bem, esse é guerreiro! E ainda ganhou um almoço de rico, hein, amigo?

O participante, com um pouco de terra no canto da boca, sorria para o apresentador e dizia que estava muito gostoso. A plateia nas redes não via a hora da grande final. O que viria por aí? Qual limite os bravos influenciáveis teriam que encarar?

No último dia, o quintal estava enfeitado com um palco baixo e painéis de LED que exibiam as marcas patrocinadoras da live. Fubanga surgiu com uma roupa toda cheia de brilho, multicolorida e muito animada.

— Bom dia a todos! Hoje é a final do nosso reality! E, como vocês podem ver ali atrás, temos uma ambulância. O que vai acontecer? Vocês me perguntam. Vamos ver quem dá o sangue de verdade pela nossa comunidade! A prova vai funcionar da seguinte forma: quem conseguir encher o meu potinho primeiro com o próprio sangue, sem desmaiar, ganha o grande prêmio e ainda leva um bonequinho do Fubanga! Estão todos com a agulha na veia e a mangueirinha pronta? Valendo!

E lá foram os finalistas. Conforme o sangue subia nos potes, o mal-estar tomava conta. Um deles acabou desmaiando e precisou receber atendimento imediato na UTI móvel. Por fim, quase apagando, o outro participante resistiu até o último mililitro e venceu o programa.

Naquele mesmo dia, Fubanga contabilizava e comemorava os cinco milhões de reais que havia faturado com a transmissão.

Os três participantes que passaram pelo programa seguiram suas vidas. O que desistiu no primeiro dia pegou uma infecção intestinal grave por conta do nado no Tietê e precisou fazer uma vaquinha virtual para o tratamento. O que desmaiou na final contraiu febre tifoide por causa do mergulho na fossa; a família teve que ajudá-lo para comprar os remédios e a alimentação dele. O vencedor, que ganhou o prêmio principal, agora está morando na rua. Como dizem muitos críticos na internet: "Não soube aproveitar a oportunidade de ouro que teve, povo sem cultura…"


sexta-feira, 3 de julho de 2026

A Engrenagem da Autossabotagem Brasileira do Micro ao Macrocosmo

 


 A Caverna dos Destruidores de "Heróis"

Introdução:

O subdesenvolvimento brasileiro não é um acidente de percurso, mas um projeto cultural e econômico sustentado por uma engrenagem psicológica perfeita. Na raiz dessa paralisia nacional, a Síndrome da Papoula (Tall Poppy Syndrome) — o impulso social de sabotar e nivelar por baixo aquele que ousa se destacar Nietzscheananente a atuação das forças reativas contra as forças ativas — converge de forma trágica com o Complexo de Vira-Lata termo cunhado por Nelson Rodrigues. Longe de ser um mero traço anímico ou uma baixa autoestima folclórica, essa mentalidade de submissão ao estrangeiro funciona como o sintoma de uma herança colonial do saudosismo de além mar e escravocrata, sistematicamente instrumentalizada como marketing político para justificar o desmonte do patrimônio público e o linchamento de nossa soberania. Esta dinâmica opera como uma versão perversa da Alegoria da Caverna de Platão: enquanto uma imprensa financiada pelos interesses do capital internacional projeta as sombras da incompetência inata do Estado para chancelar privatizações espúrias, os próprios prisioneiros encarregam-se de asfixiar quem tenta romper as correntes. Não é que que o indivíduo saia da caverna e volte para tentar libertar os ignorantes, na verdade ele é morto assim que se solta das correntes. Essa violência simbólica atinge seu ápice trágico no microcosmo familiar, onde o ressentimento geracional e o utilitarismo imediatista fazem com que pais sabotem o futuro dos filhos, estimulando o abandono da escola em nome de um empreendedorismo de sobrevivência precarizado. Do boicote histórico à nossa indústria, à destruição do pensamento crítico e à negação crônica de um Prêmio Nobel, o Brasil assiste à reprodução da barbárie. Nela, o medo de falhar na tentativa de ser grande condena o indivíduo e a nação ao conforto trágico da mediocridade conhecida, consolidando o triunfo de uma sociedade que, por odiarem a luz da emancipação, escolhe linchar suas próprias papoulas e assassinar seus próprios “heróis”. 

O Macrocosmo da Sabotagem: Da Indústria à Tecnologia

É preciso entender que quando políticos trajados de nacionalistas que introduzem a ideia de que o ápice do amor a pátria é cantar o hino nacional nas escolas, na verdade ele não está buscando na prática patriotismo. O que ele busca é o desenvolvimento de um povo que aceite tudo e não entenda nada. O que em primeiro lugar se sabota é o pensamento crítico. No nível macroeconômico, essa engrenagem de autossabotagem operou de forma escancarada para destruir as tentativas do Brasil de alcançar a autonomia tecnológica, sempre sob o aplauso vira-lata da elite e da grande mídia. Nos anos 1960, a Fábrica Nacional de Motores (FNM) e, posteriormente, engenheiros visionários tentaram consolidar uma indústria automotiva e mecânica puramente nacional. A reação do ecossistema foi imediata: uma campanha midiática massiva rotulou os projetos como "carroças" ineficientes, defendendo que o correto seria abrir mão do desenvolvimento próprio para consumir o que vinha pronto de Detroit ou da Europa. O mesmo roteiro de asfixia se repetiu na Lei de Informática dos anos 1980, quando a tentativa de criar uma microeletrônica nacional foi ridicularizada como "sucata", forçando o país a se tornar mero consumidor passivo do Vale do Silício. O ápice trágico dessa sabotagem tecnológica ocorreu no Programa Aeroespacial Brasileiro em Alcântara. Após o trágico acidente de 2003 que matou 21 cientistas de elite, o debate público — em vez de apoiar a reconstrução científica — foi inundado pelo discurso ressentido de que o Brasil era um "país agrícola" e que investir em foguetes era queimar dinheiro. O campo foi nivelado por baixo e, anos depois, a base foi praticamente cedida aos interesses estrangeiros. A mensagem do sistema é rigorosamente idêntica à do pai que sabota o filho: "Para que gastar tempo estudando e criando se comprar dos outros é mais fácil?"

A Sabotagem da Educação: O Medo do Pensamento não "Enlatado"

Essa engrenagem de destruição de heróis precisou, antes de tudo, sabotar a construção de uma educação genuinamente brasileira, livre dos modelos enlatados e cartoriais importados do exterior. Sempre que um pensador tentou criar uma escola libertadora e voltada para a soberania nacional, foi caçado pelos próprios compatriotas. Anísio Teixeira, o arquiteto da escola pública, laica e de qualidade, que idealizou a "Escola Parque" para formar cidadãos autônomos e não apenas mão de obra barata, foi perseguido por duas ditaduras e morreu em circunstâncias misteriosas sob o regime militar, acusado de "comunismo" por ousar democratizar o saber. Décadas mais tarde, os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), idealizados por Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, tentaram implementar a escola de tempo integral, oferecendo cultura, ciência e dignidade para as crianças das periferias. A reação do establishment e da grande imprensa foi brutal: os CIEPs foram apelidados pejorativamente de "brizolões", atacados por seus "altos custos" e sabotados politicamente até serem abandonados e transformados em depósitos de alunos. A elite e a classe média preferiram destruir o projeto a aceitar que a base da pirâmide tivesse acesso a uma educação sofisticada. Como bem sintetizou Darcy Ribeiro em sua célebre frase: “A crise da educação no Brasil não é uma crise; é um projeto”. O projeto é manter a educação "enlatada", tecnicista e medíocre, para que o povo continue aceitando a caverna.

Conclusão: O Triunfo da Mediocridade

Há uma perfeita simetria entre o membro do comitê do Nobel que chama os brasileiros de "destruidores de heróis", o editorial de jornal que prega a privatização por "incapacidade nacional" e os pais que retiram os filhos da escola porque "trabalhar é melhor que perder tempo estudando". Trata-se do mesmo ressentimento estrutural. A educação brasileira foi desenhada para ser enlatada e precarizada justamente para que o microcosmo familiar reproduza a mentalidade macro da colônia. Ao convencer o trabalhador de que o conhecimento não tem valor e de que o ápice da vida é o "empreendedorismo de sobrevivência" da informalidade, o sistema garante que as papoulas sejam cortadas na própria infância. O Brasil consolidou um pacto com o atraso: uma sociedade que sabota seus cientistas, destrói suas escolas de vanguarda e puxa de volta para a escuridão qualquer um que tente apontar para a luz. O Complexo de Vira-Lata e a Síndrome da Papoula não são falhas do sistema; eles são o próprio sistema funcionando perfeitamente para garantir que a colônia nunca se torne nação.


quinta-feira, 2 de julho de 2026

2ª - Influências Na Escrita Do Meu Livro: A Distopia Política do Livro 1984


 1984 (George Orwell)

Como segundo influência na escrita do meu livro, devo citar o clássico 1984 do George Orwell. Uma obra espetacular e que assim como meu livro também se trata de uma distopia. A história também virou filme e pode ser assistido gratuitamente no YouTube, mas é claro que o livro é muito mais estimulante e completo. O livro inspirou a criação de programas de televisão como Big Brother Brasil e outros no mesmo estilo, provando que em grande medida vivemos numa distopia ou que ao menos estamos constantemente buscando. Devemos nos lembrar que somos constantemente vigiados e que o nível burocrático na nossa realidade concreta não é menor do que a descrita no livro.

O Cenário
A história se passa em um futuro distópico, na Oceania, um superestado governado pelo Partido e liderado pela figura onipresente do Grande Irmão. A sociedade vive sob vigilância total através de "teletelas" e da constante ameaça da Polícia do Pensamento.
O Protagonista e o Controle Social
O protagonista é Winston Smith, um funcionário do Ministério da Verdade. Seu trabalho é falsificar registros históricos para que o passado sempre concorde com as mentiras atuais do governo. O Partido controla a população através de três mecanismos principais:
  • Novalíngua: Um idioma modificado que reduz o vocabulário para tornar impossível expressar qualquer pensamento rebelde.
  • Duplo-pensamento: A habilidade de aceitar duas crenças contraditórias simultaneamente como verdadeiras (ex: os lemas do Partido: "Guerra é Paz", "Liberdade é Escravidão", "Ignorância é Força").
  • Mutabilidade do Passado: A reescrita constante da história para provar que o Partido nunca erra. 
O Conflito e a Rebelião
Winston secretamente odeia o Partido e decide se rebelar. Ele começa a escrever um diário (um crime gravíssimo) e inicia um romance proibido com Julia, uma colega de trabalho. Juntos, eles buscam contato com a "Fraternidade", um suposto grupo de resistência secreta liderado por Emmanuel Goldstein. Eles acreditam encontrar um aliado em O'Brien, um membro do alto escalão do Partido que finge ser um rebelde. 
O Desfecho e o Esmagamento da Individualidade
Winston e Julia são traídos por O'Brien e capturados pela Polícia do Pensamento. Winston é levado ao Ministério do Amor, onde passa por um longo processo de tortura física e psicológica comandado pelo próprio O'Brien. 
O clímax ocorre na Sala 101, o lugar onde os prisioneiros enfrentam seus piores medos. Confrontado com gaiolas de ratos famintos presas ao seu rosto, Winston quebra espiritualmente e trai Julia, gritando para que fizessem aquilo com ela, e não com ele. Essa traição destrói o último traço de sua dignidade, individualidade e humanidade.
O livro termina com Winston, totalmente quebrado e recondicionado pelo sistema, sentado em um café, percebendo que a resistência foi completamente aniquilada. A frase final decreta sua derrota absoluta: "Ele amava o Grande Irmão".
Foi uma influência para minha produção literária e é um livro que recomendo fortemente. Depois da leitura é inevitável que fragmentos do livro sejam percebidos em diversos momentos da nossa distopia disfarçada de normalidade.