A Copa de 2031 teve sua data alterada pela associação dos presidentes imperialistas, pela associação das Bets, pelas emissoras de televisão hegemônicas e pela recém-criada associação das emissoras independentes, que juntas tiveram lá seus motivos para tomar essa decisão. Obviamente, o importante é termos a tão aguardada Copa do Mundo — que é nossa, que é de todo mundo —, mas que certos chatos teimam em chamar de política do "pão e circo". Claro que classificar esse espetáculo grandioso, uma paixão mundial, como pura manipulação é um exagero. Claro que é!
— Hoje a seleção faz o seu jogo de estreia! — anunciou o repórter de uma famosa emissora. — Jogaremos contra a seleção do Vaticano, que participa da Copa do Mundo pela primeira vez. Na BetLasca, as apostas estão em 12 para 1. Temos, assim, o Vaticano como o grande azarão. Volto com você, Dissimulado.
— Está aí então. Obrigado, Pauciva! Pauciva Andrade trazendo as notícias direto do campo — respondeu Dissimulado. — É, meus amigos, os nossos apostadores estão confiando na nossa seleção.
O jogo começou. Nos primeiros 15 minutos, a seleção brasileira fez o primeiro gol contra o time de padres franciscanos do Vaticano, mas, após uma ligação do Papa, o gol foi anulado. Passados mais 15 minutos do jogo reiniciado, a associação das Bets ligou e o gol foi validado. O torcedor em casa ia à loucura com as reviravoltas daquela partida. Os narradores, enlouquecidos, exaltavam as emoções do confronto. Por fim, o gol foi mantido.
O técnico brasileiro decidiu, então, colocar em campo o jogador mais conhecido da internet: Fubanguet Nino Jr. Um craque com grande experiência que, apesar de ostentar o semblante de um homem de 45 anos tomador de cerveja, tinha apenas 28 anos e milhões na conta — e eram esses milhões que garantiam os seus parceiros comerciais. Dentro de campo, a bola corria atrás dele; a bola tinha desejo de craque, mas o craque não tinha desejo de bola. Fubanguet Nino Jr. estava há cinco anos sem jogar, mas o povo ainda acreditava no herói, esperando que, em algum momento, ele fizesse uma gracinha ou uma dancinha que nos levaria ao título.
O jogo seguiu até que, em uma tentativa de invasão à grande área, foi marcado pênalti para o Vaticano. O Bispo Inquisition Santos foi o escolhido para a cobrança. O pênalti foi convertido e a partida seguiu morna até os 47 minutos do segundo tempo, momento em que a associação das Bets finalmente teve a certeza do resultado. A decisão saiu: segundo pênalti para o Vaticano. E o presidente americano foi o grande ganhador da rodada de apostas.
— Infelizmente não foi dessa vez — justificou o capitão da seleção brasileira após o apito final. — Mas este é apenas o primeiro jogo da fase classificatória. Vamos conseguir a classificação, ajustar os erros e seguir em frente.
Dali a uma semana, a seleção voltaria a campo para o segundo jogo. A imprensa exaltava as qualidades e as melhorias do time em relação às eliminatórias, destacando o fato de Fubanguet Nino Jr. ter entrado em campo e "feito a diferença" no lance em que a bola bateu nele e quase entrou no gol. Uma crônica foi feita em uma transmissão virtual, glorificando o elenco. Nas ruas, o povo, por motivos misteriosos, idolatrava Fubanguet Nino Jr.
Apesar de todo o otimismo inflado, a seleção não se classificou para o mata-mata. Nas ruas, restaram a revolta e as críticas ferozes ao técnico. Mas, no tribunal sagrado das redes sociais, a culpa jamais cairia sobre as costas do camisa 10. Naquela época, a internet desenvolveu uma linguagem própria para proteger o craque. Qualquer passe errado, qualquer tropeço na grama ou isolada de bola era recebido com um coro virtual de "Calma, gente, ele é só um menino!" ou "Não cobrem dele, o nosso garoto está evoluindo!". Aos 28 anos, com as articulações estalando e o extrato bancário explodindo, Fubanguet Nino Jr. era blindado como uma criança indefesa que não podia sofrer a crueldade das críticas.
A CBF, totalmente curvada ao poder dos patrocinadores, era quem operava o moedor de carne. A entidade não escolhia mais técnicos por tática, mas pela capacidade de aceitar ordens do departamento de marketing. Se um treinador ousava sugerir que o "menino" fizesse um teste de esteira ou ficasse no banco, o telefone da sala da comissão técnica tocava. Do outro lado, a associação das Bets e os fabricantes do energético oficial eram curtos e grossos: "Ou o garoto joga os 90 minutos, ou o patrocínio master vira fumaça antes do intervalo". E assim, o técnico engolia o orgulho e assinava a súmula. O tempo passou, o futebol mudou, mas o privilégio permaneceu intacto.
Trinta anos se passaram desde aquela fatídica Copa de 2031. Chegamos à Copa do Mundo de 2061. O mundo agora era hipertecnológico: os jogadores corriam a velocidades sobre-humanas graças a implantes cibernéticos e os juízes eram hologramas programados por algoritmos de apostas em tempo real. Mas, no círculo central do campo, uma silhueta parecia congelada no tempo.
Lá estava ele. Fubanguet Nino Jr., aos 58 anos de idade, batendo o recorde histórico de jogador mais velho a pisar em uma Copa do Mundo.
O semblante, que aos 28 já parecia de um homem de 45 anos tomador de cerveja, agora exibia uma respeitável calvície brilhante, uma barba completamente branca e uma silhueta que lembrava muito a de um simpático aposentado que passa os domingos assando carne na churrasqueira. Ele jogava de calça de moletom ortopédica (patrocinada, claro) e usava uma chuteira especial com amortecimento duplo para os joelhos calejados.
A bola, que trinta anos antes já corria atrás dele com desejo de craque, agora parecia ter pena da artrose do ídolo. Ela quicava mansamente em sua direção, parando exatamente na frente do seu pé direito para que ele não precisasse se esticar.
Nas redes sociais, agora transmitidas diretamente para as lentes de contato dos torcedores, o amor pelo "menino" continuava o mesmo. Quando Fubanguet dava um passe de dois metros para o lado e imediatamente colocava as mãos nos joelhos para puxar o ar, a internet explodia em fofura:
— Olha lá o nosso garoto se esforçando! Coisa mais linda, ele joga com o coração de uma criança! — comentavam os influenciadores virtuais de 2061.
Se um analista esportivo de inteligência artificial sugeria que colocar um senhor de quase 60 anos para marcar um ponta-esquerda androide de 19 anos da seleção da Neo-França era um erro, o cancelamento era instantâneo: "Que absurdo perseguir o menino Fubanguet! Deixem o garoto brincar em paz!" Torcedores acusavam qualquer um que fizesse crítica a Fubanguet de etarismo. Na Betlasca apostas pagavam prêmios para as quedas do herói e até pela possibilidade de infarto em campo.
A CBF comemorava o sucesso de público. Os ingressos para a área VIP, onde os torcedores podiam ver Fubanguet tomar seu remédio para pressão no banco de reservas, custavam fortunas. A Copa do Mundo já não era sobre ganhar ou perder o troféu. Era sobre manter viva a engrenagem do pão e circo digital, garantindo que o menino eterno — agora o vovô da Copa — continuasse gerando cliques, dancinhas lentas e lucros astronômicos para as Bets até o fim dos tempos.






