O Fetiche Sadomasoquista da Ordem Social
A palavra conservador vem do latim conservātor, conservatōris — “aquele que conserva, que guarda, que mantém”. Conheço a etimologia e a morfologia da palavra, mas não estou interessado em analisar o termo a partir de sua raiz latina estéril. Prefiro avaliá-lo a partir do português brasileiro real, pois acho que estamos precisando de mais do concreto que de fantasias, que traduz com muito mais fidelidade o que de fato é ser um conservador na nossa sociedade. Faço aqui, deliberadamente, o uso do trocadilho no lugar do dicionário. O trocadilho nos garante um significado muito mais próximo da nossa violenta realidade concreta.
Afinal, do ponto de vista social e político, o que significa ser conservador? Significa adotar uma postura diante da mudança social que prioriza a preservação de instituições, normas e laços já existentes. Ou seja: se existe uma visão de mundo, por mais estúpida e violenta que ela seja, ela deve ser mantida. A quem isso interessaria, senão àqueles que detêm privilégios acima dos demais? Na política, o conservadorismo se fantasia como a defesa da ordem, da autoridade, da tradição e de uma suposta "mudança gradual". Na prática, essa engenharia serve apenas para adequar o Estado aos desejos de um grupo muito pequeno, que usa de inúmeros artifícios para não perder as vantagens que goza às custas do uso dos corpos alheios — uma escravidão disfarçada, mas persistente.
É neste aspecto que chegamos ao cerne do que chamo de conserva-dor.
Para manter-se nesse estado, a sociedade passa a se comportar em uma espécie de relação sadomasoquista que não se encerra com o passar do tempo, nem com o gozo do sádico. É um fetiche social perverso. De um lado, existem os sádicos, aqueles que conservam a dor no outro e sentem prazer no sofrimento provocado; do outro, os masoquistas que o suportam. Trata-se de um jogo no qual a vítima nem sempre está de acordo ou tem clareza do seu papel prático. Em muitos casos, o oprimido até sabe que sofre, mas não compreende a engrenagem do abuso, quem o está abusando, ou as regras complexas desse contrato de dominação, ele acredita que um dia será exaltado ou terá um reino onde ele terá as regalias que aqui o fora negadas, assim ele se infantiliza como uma criança que acredita no Papai Noel e no mostro debaixo da cama.
E os sádicos que sentem o prazer ditam regras diferentes dependendo do seu campo de atuação. Se eles dominam o campo institucional, torturam com a burocracia e punem com as leis; se dominam o campo espiritual, punem com a culpa e com o desvio de foco; se dominam as áreas de comando e força, punem com a frustração e com a violência física. Objetivo principal é mante-los um estado perene de ignorância que facilite o controle por meio da estupidez e força o estado de dissonância cognitiva.
Os masoquistas sociais, por sua vez, raramente sentem prazer, mas aceitam a eternização de suas próprias dores: preconceitos, privações de toda espécie, ignorância, limitações, abusos e estupidez. Cria-se o conformismo absoluto: "para que mudar as coisas que causam minha dor?" ou "para que mudar aquilo a que já me habituei?". Depois de devidamente adestrado, o masoquista submisso pode ser usado de todas as formas possíveis. Ele se torna tão manso que passa, inclusive, a lamber as botas e a defender as maldades do seu sádico predileto. É a naturalização da barbárie travestida de lógica: "a sociedade só sobrevive com o capitalismo, serei um sádico por mérito" — eis a farsa da meritocracia.
As ideias usadas para manipular essa massa masoquista começam com o estímulo midiático à busca por referências fanáticas. Romantiza-se o sujeito "apaixonado", "louco" e obstinado — como ocorre deliberadamente no futebol —, estimulando-se uma inclinação à estupidez. Contudo, o sadismo do sistema é cirúrgico: ele fomenta o descontrole, mas aciona a polícia — o braço armado e repressor do Estado — para espancar e prender o indivíduo assim que ele ultrapassa o limite utilitário da alienação. O fanatismo é permitido apenas enquanto serve de anestesia para o gado; se ameaça a ordem, o sádico chicoteia.
No campo espiritual, as lideranças religiosas atuam como gerentes desse conserva-dor. Sabem perfeitamente que o livro sagrado que professam é repleto de contradições históricas. Compreendem que a escrita pode ser facilmente manipulada e direcionada para o ataque a qualquer grupo dissendente. É desse poço de interpretações convenientes que nasceram e se perpetuam crimes como a xenofobia, o racismo, a escravidão, o feminicídio, a transfobia e a homofobia, além de alienações profundas como o machismo. Sob o pretexto da fé, impõe-se a ideia de um casamento monogâmico tradicional falido e fracassado, que traz sofrimento e ignora por completo a diversidade humana e as suas múltiplas formas de amar.
A política, por fim, que deveria ser o caminho emancipatório para proporcionar qualidade de vida, garantir a evolução voluntária da sociedade e erradicar a fome, a barbárie e a violência, foi totalmente cooptada para servir à classe dominante. Sua função real passou a ser a concentração de renda e a ampliação da desigualdade através da aplicação cirúrgica da miséria: sucateia-se a educação, inflama-se a violência e precariza-se a saúde pública. Toda essa engrenagem visa reprimir o ser humano, reduzindo-o a uma fórmula pronta, um molde existencial definido por quem domina a religião, o aparato de repressão, as estruturas políticas e os meios de produção. O objetivo final é o controle absoluto dos corpos e das mentes. Em suma: alimentar o fetiche de conservar a dor dos outros é a única garantia para que a elite sádica continue vivendo muitíssimo bem.
O conserva-dor opera, fundamentalmente, como uma máquina de produzir dissonância cognitiva. De um lado, a classe dominante instala e mantém o mal para garantir sua opulência; de outro, a classe oprimida, embrutecida e adestrada, aplaude o próprio sofrimento. Ao perder a capacidade de compreender a própria realidade, o sujeito alienado cai na armadilha da estupidez funcional. Passa, então, a buscar a validação do sádico, copiando as práticas do opressor e reproduzindo, na base da pirâmide, toda espécie de maldade contra os seus iguais é assim que o mal se torna banal e caminho, chamada de luta pela l
iberdade, qual?

