"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.
Mostrando postagens com marcador Crítica Social. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crítica Social. Mostrar todas as postagens

domingo, 12 de julho de 2026

Crônica - A grande copa



A Copa de 2031 teve sua data alterada pela associação dos presidentes imperialistas, pela associação das Bets, pelas emissoras de televisão hegemônicas e pela recém-criada associação das emissoras independentes, que juntas tiveram lá seus motivos para tomar essa decisão. Obviamente, o importante é termos a tão aguardada Copa do Mundo — que é nossa, que é de todo mundo —, mas que certos chatos teimam em chamar de política do "pão e circo". Claro que classificar esse espetáculo grandioso, uma paixão mundial, como pura manipulação é um exagero. Claro que é!

— Hoje a seleção faz o seu jogo de estreia! — anunciou o repórter de uma famosa emissora. — Jogaremos contra a seleção do Vaticano, que participa da Copa do Mundo pela primeira vez. Na BetLasca, as apostas estão em 12 para 1. Temos, assim, o Vaticano como o grande azarão. Volto com você, Dissimulado.

— Está aí então. Obrigado, Pauciva! Pauciva Andrade trazendo as notícias direto do campo — respondeu Dissimulado. — É, meus amigos, os nossos apostadores estão confiando na nossa seleção.

O jogo começou. Nos primeiros 15 minutos, a seleção brasileira fez o primeiro gol contra o time de padres franciscanos do Vaticano, mas, após uma ligação do Papa, o gol foi anulado. Passados mais 15 minutos do jogo reiniciado, a associação das Bets ligou e o gol foi validado. O torcedor em casa ia à loucura com as reviravoltas daquela partida. Os narradores, enlouquecidos, exaltavam as emoções do confronto. Por fim, o gol foi mantido.

O técnico brasileiro decidiu, então, colocar em campo o jogador mais conhecido da internet: Fubanguet Nino Jr. Um craque com grande experiência que, apesar de ostentar o semblante de um homem de 45 anos tomador de cerveja, tinha apenas 28 anos e milhões na conta — e eram esses milhões que garantiam os seus parceiros comerciais. Dentro de campo, a bola corria atrás dele; a bola tinha desejo de craque, mas o craque não tinha desejo de bola. Fubanguet Nino Jr. estava há cinco anos sem jogar, mas o povo ainda acreditava no herói, esperando que, em algum momento, ele fizesse uma gracinha ou uma dancinha que nos levaria ao título.

O jogo seguiu até que, em uma tentativa de invasão à grande área, foi marcado pênalti para o Vaticano. O Bispo Inquisition Santos foi o escolhido para a cobrança. O pênalti foi convertido e a partida seguiu morna até os 47 minutos do segundo tempo, momento em que a associação das Bets finalmente teve a certeza do resultado. A decisão saiu: segundo pênalti para o Vaticano. E o presidente americano foi o grande ganhador da rodada de apostas.

— Infelizmente não foi dessa vez — justificou o capitão da seleção brasileira após o apito final. — Mas este é apenas o primeiro jogo da fase classificatória. Vamos conseguir a classificação, ajustar os erros e seguir em frente.

Dali a uma semana, a seleção voltaria a campo para o segundo jogo. A imprensa exaltava as qualidades e as melhorias do time em relação às eliminatórias, destacando o fato de Fubanguet Nino Jr. ter entrado em campo e "feito a diferença" no lance em que a bola bateu nele e quase entrou no gol. Uma crônica foi feita em uma transmissão virtual, glorificando o elenco. Nas ruas, o povo, por motivos misteriosos, idolatrava Fubanguet Nino Jr.

Apesar de todo o otimismo inflado, a seleção não se classificou para o mata-mata. Nas ruas, restaram a revolta e as críticas ferozes ao técnico. Mas, no tribunal sagrado das redes sociais, a culpa jamais cairia sobre as costas do camisa 10. Naquela época, a internet desenvolveu uma linguagem própria para proteger o craque. Qualquer passe errado, qualquer tropeço na grama ou isolada de bola era recebido com um coro virtual de "Calma, gente, ele é só um menino!" ou "Não cobrem dele, o nosso garoto está evoluindo!". Aos 28 anos, com as articulações estalando e o extrato bancário explodindo, Fubanguet Nino Jr. era blindado como uma criança indefesa que não podia sofrer a crueldade das críticas.

A CBF, totalmente curvada ao poder dos patrocinadores, era quem operava o moedor de carne. A entidade não escolhia mais técnicos por tática, mas pela capacidade de aceitar ordens do departamento de marketing. Se um treinador ousava sugerir que o "menino" fizesse um teste de esteira ou ficasse no banco, o telefone da sala da comissão técnica tocava. Do outro lado, a associação das Bets e os fabricantes do energético oficial eram curtos e grossos: "Ou o garoto joga os 90 minutos, ou o patrocínio master vira fumaça antes do intervalo". E assim, o técnico engolia o orgulho e assinava a súmula. O tempo passou, o futebol mudou, mas o privilégio permaneceu intacto.

Trinta anos se passaram desde aquela fatídica Copa de 2031. Chegamos à Copa do Mundo de 2061. O mundo agora era hipertecnológico: os jogadores corriam a velocidades sobre-humanas graças a implantes cibernéticos e os juízes eram hologramas programados por algoritmos de apostas em tempo real. Mas, no círculo central do campo, uma silhueta parecia congelada no tempo.

Lá estava ele. Fubanguet Nino Jr., aos 58 anos de idade, batendo o recorde histórico de jogador mais velho a pisar em uma Copa do Mundo.

O semblante, que aos 28 já parecia de um homem de 45 anos tomador de cerveja, agora exibia uma respeitável calvície brilhante, uma barba completamente branca e uma silhueta que lembrava muito a de um simpático aposentado que passa os domingos assando carne na churrasqueira. Ele jogava de calça de moletom ortopédica (patrocinada, claro) e usava uma chuteira especial com amortecimento duplo para os joelhos calejados.

A bola, que trinta anos antes já corria atrás dele com desejo de craque, agora parecia ter pena da artrose do ídolo. Ela quicava mansamente em sua direção, parando exatamente na frente do seu pé direito para que ele não precisasse se esticar.

Nas redes sociais, agora transmitidas diretamente para as lentes de contato dos torcedores, o amor pelo "menino" continuava o mesmo. Quando Fubanguet dava um passe de dois metros para o lado e imediatamente colocava as mãos nos joelhos para puxar o ar, a internet explodia em fofura:

— Olha lá o nosso garoto se esforçando! Coisa mais linda, ele joga com o coração de uma criança! — comentavam os influenciadores virtuais de 2061.

Se um analista esportivo de inteligência artificial sugeria que colocar um senhor de quase 60 anos para marcar um ponta-esquerda androide de 19 anos da seleção da Neo-França era um erro, o cancelamento era instantâneo: "Que absurdo perseguir o menino Fubanguet! Deixem o garoto brincar em paz!" Torcedores acusavam qualquer um que fizesse crítica a Fubanguet de etarismo. Na Betlasca apostas pagavam prêmios para as quedas do herói e até pela possibilidade de infarto em campo.

A CBF comemorava o sucesso de público. Os ingressos para a área VIP, onde os torcedores podiam ver Fubanguet tomar seu remédio para pressão no banco de reservas, custavam fortunas. A Copa do Mundo já não era sobre ganhar ou perder o troféu. Era sobre manter viva a engrenagem do pão e circo digital, garantindo que o menino eterno — agora o vovô da Copa — continuasse gerando cliques, dancinhas lentas e lucros astronômicos para as Bets até o fim dos tempos. 

quinta-feira, 9 de julho de 2026

Sério que a violência contra professores te toca? Leia todo o artigo e depois pense qual sua parte nisso.

 


A Segregação do Professor

Nos últimos anos, temos testemunhado um crescimento alarmante nos casos de violência contra professores. Esse fenômeno é o resultado, a longo prazo, de ataques sistemáticos de agentes políticos contra as escolas e os docentes, somado a uma distorção social sobre a criação de filhos. No fim, esse cenário reverbera em estupidez e agressividade direcionadas justamente a quem aponta o caminho para fora da ignorância.

Em uma sociedade que valoriza a superficialidade e a ignorância, cria-se uma trincheira para refutar qualquer um que pretenda mudar esse quadro. É preciso reconhecer que ninguém constrói o conhecimento inteiramente sozinho; o ambiente molda o indivíduo. Existem grupos e interesses reais — e não teorias da conspiração envolvendo extraterrestres ou sociedades secretas — que lucram com a passividade intelectual da população.

Esse processo de desvalorização não é novo. A história demonstra que, para controlar uma sociedade, o primeiro passo de regimes autoritários e extremistas é atacar a escola e os professores. Afinal, cidadãos privados de senso crítico são mais fáceis de manipular. Os recortes históricos a seguir ilustram como esse mecanismo operou ao longo do tempo:

Linha do Tempo do Anti-intelectualismo

  1. A Queima de Livros e Enterro de Eruditos (Dinastia Qin, China - 213 a.C.): O Imperador Qin Shi Huang, buscando centralizar o poder absoluto, ordenou a destruição de textos clássicos (especialmente os de Confúcio) e mandou enterrar vivos centenas de intelectuais que defendiam tradições contrárias à sua visão de Estado.

  2. A Inquisição Católica e a Caça aos Hereges (Europa - Séculos XII a XIX): O Tribunal do Santo Ofício utilizou a censura, a tortura e execuções na fogueira (como a do filósofo Giordano Bruno) para suprimir o conhecimento científico que desafiava os dogmas religiosos e o poder absolutista.

  3. A Revolução Cultural Chinesa (China - 1966 a 1976): Mao Tsé-Tung instigou hordas de jovens da Guarda Vermelha a destruir o patrimônio histórico e a perseguir professores e artistas, rotulando a erudição como uma ameaça burguesa ao regime.

  4. A Queima de Livros na Alemanha Nazista (Alemanha - 1933): O regime de Adolf Hitler promoveu fogueiras públicas para destruir obras de autores judeus, pacifistas e comunistas, visando depurar a sociedade de ideias contrárias à ideologia ariana.

  5. O Macarthismo (Estados Unidos - Década de 1950): Durante o "Pânico Vermelho" (Red Scare), o senador Joseph McCarthy liderou uma perseguição ideológica que resultou na demissão e no silenciamento de professores universitários, cientistas e artistas sob suspeita de simpatias comunistas.

  6. A Perseguição na Ditadura Militar Brasileira (Brasil - 1964 a 1985): O regime militar perseguiu, prendeu e cassou centenas de professores e cientistas por meio do Ato Institucional Número 5 (AI-5), esvaziando o pensamento crítico da educação pública para impor controle social.

  7. O Regime do Khmer Vermelho (Camboja - 1975 a 1979): Sob a liderança de Pol Pot, o regime executou sistematicamente professores, médicos e intelectuais — inclusive pessoas que usavam óculos, visto como um sinal de intelectualidade — para forçar a criação de uma sociedade agrária utópica.

  8. A Destruição de Bibliotecas na Guerra da Bósnia (Iugoslávia - 1992 a 1996): Durante a limpeza étnica, forças nacionalistas bombardearam a Biblioteca Nacional e Universitária de Sarajevo, em uma tentativa deliberada de erradicar a herança cultural e o conhecimento plural da região.

  9. A Revolução Francesa e o Terror Jacobino (França - 1793 a 1794): Durante o Reino do Terror, cientistas proeminentes, como o químico Antoine Lavoisier, foram guilhotinados, demonstrando que o extremismo político e a irracionalidade não toleram a moderação e o avanço da ciência.

  10. A Campanha Anti-Intelectual Soviética (URSS - Décadas de 1930 a 1950): Sob o governo de Josef Stalin, intelectuais, escritores e historiadores foram enviados para campos de trabalho forçado (Gulags), impondo uma versão oficial e rígida da ciência e da história.

Não é de hoje que perseguições e violência contra intelectuais ocorre. Quando um grupo político quer legitimar-se no poder seja ele do extremo político que for. Quando as pessoas são atormentadas pelo pânico moral e se tornam estúpidas e incapaz de se guiar pela razão, o passado se repete. As práticas relatadas nos fatos históricos não é algo do passado ele continua no Brasil contemporâneo 

Os Principais Exponentes das Narrativas

Jair Bolsonaro: Principal figura política a projetar o termo "kit gay" nacionalmente. A expressão foi usada de forma pejorativa para apelidar o projeto "Escola Sem Homofobia" (desenvolvido em 2010 pelo Ministério da Educação com foco na capacitação de professores contra o preconceito, mas que nunca foi distribuído nas escolas). Bolsonaro associou o projeto a livros de educação sexual estrangeiros e alegou reiteradamente que as escolas brasileiras visavam "sexualizar crianças" ou "incentivar o homossexualismo". 

Nikolas Ferreira: Deputado federal expressivo no movimento conservador. Alinha-se diretamente ao discurso contra o que chama de "ideologia de gênero" e "doutrinação marxista" nas escolas. Defende projetos que limitam a abordagem de questões de sexualidade e diversidade por professores.

Silas Malafaia: Pastor evangélico que teve papel ativo na disseminação dessa narrativa. Durante campanhas eleitorais, usou palanques e redes sociais para associar partidos de esquerda e o corpo docente a cartilhas que destruiriam a "família tradicional", atuando como um dos grandes impulsionadores do engajamento digital em torno do tema.

Pablo Marçal: O empresário e influenciador também utilizou as redes sociais para reproduzir e impulsionar vídeos e conteúdos que associavam adversários políticos e programas de governo à suposta distribuição do falso "kit gay".

Movimento Escola Sem Partido (Miguel Nagib): Embora não focado estritamente na pauta LGBTQIA+, o movimento fundado por Nagib foi o grande catalisador da tese de que o professor é um "doutrinador ideológico". O grupo estimulava alunos a filmarem professores em sala de aula sob o pretexto de combater o "marxismo cultural".

O Cenário Educacional no Brasil Contemporâneo

1. A Anatomia do Abandono (Síntese dos Alertas Nacionais e Globais)

APEOESP e SciELO Brasil: Apontam o adoecimento docente severo e a violência cotidiana como frutos diretos da deterioração estrutural, em que a agressividade física reflete a perda do respeito à autoridade do saber.

CNTE: Denuncia o avanço de movimentos de censura, patrulhamento ideológico e vigilância dentro de sala de aula, o que amordaça a liberdade de cátedra.

Relatórios da OCDE: Evidenciam que o Brasil lidera rankings globais de violência contra professores, destacando que os docentes perdem mais de 20% do tempo de aula tentando manter a ordem em classes superlotadas, além de receberem quase metade da remuneração de seus pares internacionais.

Relatórios da ONU: Alertam para as violações de direitos humanos decorrentes do cerceamento à autonomia pedagógica e do desmonte da educação antirracista e inclusiva.

2. O Mecanismo Técnico: Novo Gerencialismo e Metas de Fachada

A precarização não ocorre por mera incompetência administrativa, mas por um projeto político-econômico moldado pelo Novo Gerencialismo. Essa filosofia importa a lógica empresarial para o setor público, focando estritamente em indicadores quantitativos e no corte de gastos (austeridade), ignorando a qualidade real do ensino:

A "Fábrica" de Alunos: O foco gerencialista está em bater metas estatísticas de aprovação e fluxo escolar para inflar índices oficiais, mesmo que os estudantes concluam os ciclos semi-analfabetos.

O Professor como Operário: Retira-se a autonomia do docente, transformando-o em um mero reprodutor de apostilas padronizadas, cobrado exaustivamente pelo preenchimento de burocracias virtuais, planilhas e plataformas digitais.

3. A Instrumentalização Política

Objetivos Eleitoreiros

O esvaziamento da educação serve como munição para palanques políticos que lucram diretamente com a polarização social:

Criação de Inimigos Imaginários: Em vez de debater a falta de verbas ou o piso salarial, discursos populistas elegem o professor como um "doutrinador ideológico" a ser combatido.

Soluções Espetaculosas: Plataformas eleitorais priorizam medidas cosméticas e punitivas (como câmeras em salas e militarização de fachadas) que geram engajamento digital e votos, mas mascaram a persistente falta de investimento estrutural.

Eleições chegando
Chega de discursos românticos sobre a educação
É hora de parar com o apelo tolo para político por "mais educação". Não se pede isso político isso se ensina aos filhos que devem aprender limites e ouvirem "não". Como eleitor, você deve dizer: Exijo uma educação de qualidade baseada no respeito real ao trabalho docente e ao aprendizado do meu filho, longe de bobagens românticas que não levam a nada.
Escravo é quem trabalha por amor, palavras doces e tapinha nas costas; tolo é quem se contenta com o discurso vazio de que o professor é o "formador de todas as outras profissões". Precisamos respeitar a nós mesmos e encarar com seriedade e firmeza toda espécie de canalha que emburrece as pessoas para usá-las— e não com sentimentalismo — a realidade que sucateia a nossa profissão.

domingo, 5 de julho de 2026

O Progresso para Ninguém


A Inutilidade do Excesso e o Sequestro da Existência

A equação da vida humana, quando despida dos artifícios da modernidade, é de uma simplicidade quase poética. Do ponto de vista estritamente biológico e existencial, a nossa sobrevivência e plenitude dependem de uma tríade fundamental: o alimento que nutre o corpo, o descanso que regenera a mente e o afeto que justifica a jornada. Não há complexidade nisso. A terra, em seu estado natural, sempre foi perfeitamente capaz de fornecer o sustento; os ciclos do sol sempre souberam ditar o repouso; e a nossa natureza gregária sempre nos inclinou ao cuidado mútuo. Diante dessa verdade elementar, a estrutura do mundo contemporâneo deixa de parecer um ápice civilizatório e passa a se revelar como um completo absurdo.

Se tudo o que precisamos cabe no limite do que é vivo, para que serve a escala monumental da nossa destruição? Assistimos, anestesiados, à pilhagem sistemática do planeta: montanhas inteiras são devoradas por frentes de mineração, oceanos e subsolos são perfurados até o esgotamento em busca de petróleo, e biomas inteiros são reduzidos a cinzas e pasto. Pior: travam-se guerras geopolíticas sangrentas, sacrificando vidas humanas reais, para disputar o controle desses mesmos recursos finitos. O paradoxo é grotesco: destrói-se a base da vida (a água, o ar, o solo) para alimentar uma engrenagem que produz o supérfluo. Financia-se a morte em nome de uma riqueza que ninguém pode comer, beber ou abraçar.

Essa lógica do excesso atinge o ápice do ridículo no nosso cotidiano mais banal. Nós alcançamos o estágio de sofisticação industrial onde o óbvio precisa ser processado para ter valor. Criamos indústrias bilionárias de refrigerantes e sucos de caixinha repletos de xaropes, conservantes e corantes artificiais, ignorando deliberadamente que a laranja já nasce perfeita, pronta e embalada pela própria natureza no galho de uma árvore. Substituímos o essencial pelo simulacro. Fomos ensinados a rejeitar a abundância simples da terra para nos tornarmos dependentes da escassez artificial do mercado. Criou-se a necessidade do inútil.

Esse cenário não brotou do acaso; ele é o resultado de um projeto de dominação histórica. Em algum momento da nossa trajetória, as terras que eram comuns a todos foram cercadas, privatizadas e transformadas em propriedades e ativos financeiros. Fomos expulsos do quintal do mundo e empurrados para as linhas de montagem, para os escritórios e para as telas. O sistema não apenas confiscou os meios de subsistência autônoma, mas operou um sequestro cultural: ele nos convenceu, por meio da força, medo, publicidade e do discurso do desenvolvimento técnico, de que este modo de vida frenético, ansioso e poluído era o "progresso". Disseram-nos que este era o melhor dos mundos possíveis.

A grande farsa do século XXI, no entanto, já não consegue se sustentar sob o peso das crises climáticas e da falência da saúde mental global. Inegável inclusive para quem mais desmata, pois o Agro negócio já pede seguro para se proteger dos prejuízos que o El ninō irá causar em 2026. A pergunta que ecoa diante de cada floresta derrubada, de cada barril de petróleo extraído e de cada prateleira lotada de produtos plásticos descartáveis é urgente e incontornável: este progresso foi o melhor para quem? Certamente não para a humanidade que adoece trabalhando para consumir o que não precisa, e muito menos para o planeta que sangra para sustentar o lucro de uma minoria invisível. É hora de romper o feitiço do consumo e lembrar que o necessário nunca dependeu da destruição. Será que os benefícios que são de fato benefícios? Será que a ampliação da espectativa de vida dos seres humanos não é inversamente proporcional a expectativa de vida do planeta como o conhecemos? Será que valeu a pena e irá continuar valendo a pena trocar o concreto pelo abstrato?

terça-feira, 23 de junho de 2026

Crônica - O Encontro dos Erros


 

Hoje encontrei um antigo vizinho de porta com o braço engessado, desses que fazem farra todo final de semana. Em sua casa, a festa começa na sexta-feira e termina no limite da noite de domingo, e isso porque ele precisa sair para trabalhar. Costumeiramente, sai ainda sob o efeito do álcool.

— Acho que estou com virose — disse ele ao chefe.

— Acho melhor ir para casa, vá ao médico — respondeu o chefe, desconfiado do sujeito.

O malandro ia dali para o hospital para conseguir o amparo de um atestado médico. Saindo do hospital com a receita e o documento, corria para o mercado, pois ganhara mais algumas horas de farra. Em casa, a patroa não se surpreendia e sempre chamava a atenção do sujeito para a farra e para a moto. Pois é, ele andava de moto e, para chegar mais rápido, a metia na contramão sempre que podia. Aos amigos, gabava-se:

— Nessa vida temos que ser espertos. Acha que eu vou dar a volta no quarteirão se por aqui corto caminho?

Os amigos quase sempre respondiam:

— Cuidado, se a polícia te pegar, vai tomar multa e os caras vão levar sua moto.

— Que nada, sou esperto e fico de olho vivo, olho muito vivo! — dizia, e se acabava de rir da sua própria falta de ética.

De forma alguma se perguntava por que devia seguir as regras que constantemente quebrava; pensava apenas nas facilidades que suas transgressões poderiam lhe trazer. Certa vez, arrumou uma confusão na fila da lotérica. Furou a fila se aproveitando da distração de uma senhora, mas o que ele não percebeu foi que ela estava acompanhada do filho, que de imediato chamou sua atenção:

— Ei, o senhor não tem vergonha na cara não? Furando fila!

Mas, como é natural dos canalhas quando são pegos em seus delitos, ele negou:

— Você está maluco, é? Estou aqui desde antes de vocês chegarem!

— O senhor é um cara de pau — respondeu o outro — e pode voltar para o seu lugar na fila.

Nesse momento, um coro de vozes, inclusive de atendentes, o constrangeu a ponto de ele abandonar a fila e se retirar debaixo de vaias. Mas não acredite o leitor que ele aprendeu. De forma alguma.

A vida é uma loteria: há dias de muita sorte, mas também há dias de muito azar. Nosso amigo, certo dia, quando descia a rua pela contramão, deu de encontrar um de seus vizinhos embriagado, que subia a rua em seu carro e acabou por atropelá-lo. Na rua, formou-se um debate onde todos, de um lado a outro, achavam que tinham razão:

— Esse vagabundo desce sempre a rua na contramão, bem feito para ele! — disse um sujeito que saía de um bar à frente.

— Mas a culpa é desse bêbado — retrucou uma vizinha que não deixava ninguém dormir, pois adorava um som noturno. — Ele não sabe que é proibido beber e dirigir?

— Mas isso não é desculpa — disse outro, soltando uma fumaça fedorenta do seu pod. — Todo mundo sabe que não se pode descer a rua, é contramão.

— E encher a cara de cachaça e dirigir feito um louco pode? — disse uma vizinha viciada em jogos on-line. — Fico indignada com uma coisa dessas.

Nesse momento, chegam a polícia, uma ambulância e, logo depois, o guincho. Um foi levado ao hospital e o bêbado foi conduzido à delegacia. Ambos os veículos foram apreendidos. Na delegacia, o motorista embriagado, além das multas, seria autuado pelo crime de embriaguez ao volante. Um policial, que cumpria medidas administrativas por ter baleado um cidadão e era investigado por envolvimento com cobrança de propina, lhe dava um belo sermão:

— O senhor não tem vergonha não? Um homem na sua idade fazer uma coisa dessas... O sujeito, um cidadão de bem, está lá no hospital todo arrebentado. O senhor é um canalha.

O motorista, que naquelas alturas já estava menos sob o efeito do álcool, permanecia de cabeça baixa e respondeu ao policial:

— Mas senhor… ele descia a rua na contramão, não vi ele…

— Claro que não viu — retrucou o policial. — Estava bêbado! Não justifique seu erro com o erro dos outros. Faz a merda e põe a culpa nos outros.

No hospital, o paciente, cheio de arranhões e com muita dor, recebia atendimento. O médico que o atendia — um candidato a vereador que sempre "dava um jeitinho" para quem necessitava de um atestado médico ou para passar uma cirurgia à frente dos demais pacientes — lhe dizia que o braço estava quebrado e que teria que engessar. Pensa o leitor que o acidentado ficou triste com a notícia? Claro que não. Depois de tomar os remédios para a dor durante uns dias, a farra recomeçou. Na sua casa, em meio ao som alto, eles discutiam inflamados sobre a corrupção em Brasília, e tudo segue normalmente…

Diante dessa distopia, assistindo a esse espetáculo diário de pequenos delitos justificados pelo erro alheio, imagino eu... como seria viver num mundo em que as pessoas entendessem a razão das coisas, e não concordassem com a crítica ao outro sem antes olhar para dentro de si mesmas?




segunda-feira, 18 de maio de 2026

O Conserva-dor

 



O Fetiche Sadomasoquista da Ordem Social


A palavra conservador vem do latim conservātor, conservatōris — “aquele que conserva, que guarda, que mantém”. Conheço a etimologia e a morfologia da palavra, mas não estou interessado em analisar o termo a partir de sua raiz latina estéril. Prefiro avaliá-lo a partir do português brasileiro real, pois acho que estamos precisando de mais do concreto que de fantasias, que traduz com muito mais fidelidade o que de fato é ser um conservador na nossa sociedade. Faço aqui, deliberadamente, o uso do trocadilho no lugar do dicionário. O trocadilho nos garante um significado muito mais próximo da nossa violenta realidade concreta.

Afinal, do ponto de vista social e político, o que significa ser conservador? Significa adotar uma postura diante da mudança social que prioriza a preservação de instituições, normas e laços já existentes. Ou seja: se existe uma visão de mundo, por mais estúpida e violenta que ela seja, ela deve ser mantida. A quem isso interessaria, senão àqueles que detêm privilégios acima dos demais? Na política, o conservadorismo se fantasia como a defesa da ordem, da autoridade, da tradição e de uma suposta "mudança gradual". Na prática, essa engenharia serve apenas para adequar o Estado aos desejos de um grupo muito pequeno, que usa de inúmeros artifícios para não perder as vantagens que goza às custas do uso dos corpos alheios — uma escravidão disfarçada, mas persistente.


É neste aspecto que chegamos ao cerne do que chamo de conserva-dor.

Para manter-se nesse estado, a sociedade passa a se comportar em uma espécie de relação sadomasoquista que não se encerra com o passar do tempo, nem com o gozo do sádico. É um fetiche social perverso. De um lado, existem os sádicos, aqueles que conservam a dor no outro e sentem prazer no sofrimento provocado; do outro, os masoquistas que o suportam. Trata-se de um jogo no qual a vítima nem sempre está de acordo ou tem clareza do seu papel prático. Em muitos casos, o oprimido até sabe que sofre, mas não compreende a engrenagem do abuso, quem o está abusando, ou as regras complexas desse contrato de dominação, ele acredita que um dia será exaltado ou terá um reino onde ele terá as regalias que aqui o fora negadas, assim ele se infantiliza como uma criança que acredita no Papai Noel e no mostro debaixo da cama.

E os sádicos que sentem o prazer ditam regras diferentes dependendo do seu campo de atuação. Se eles dominam o campo institucional, torturam com a burocracia e punem com as leis; se dominam o campo espiritual, punem com a culpa e com o desvio de foco; se dominam as áreas de comando e força, punem com a frustração e com a violência física. Objetivo principal é mante-los um estado perene de ignorância que facilite o controle por meio da estupidez e força o estado de dissonância cognitiva.

Os masoquistas sociais, por sua vez, raramente sentem prazer, mas aceitam a eternização de suas próprias dores: preconceitos, privações de toda espécie, ignorância, limitações, abusos e estupidez. Cria-se o conformismo absoluto: "para que mudar as coisas que causam minha dor?" ou "para que mudar aquilo a que já me habituei?". Depois de devidamente adestrado, o masoquista submisso pode ser usado de todas as formas possíveis. Ele se torna tão manso que passa, inclusive, a lamber as botas e a defender as maldades do seu sádico predileto. É a naturalização da barbárie travestida de lógica: "a sociedade só sobrevive com o capitalismo, serei um sádico por mérito" — eis a farsa da meritocracia.

As ideias usadas para manipular essa massa masoquista começam com o estímulo midiático à busca por referências fanáticas. Romantiza-se o sujeito "apaixonado", "louco" e obstinado — como ocorre deliberadamente no futebol —, estimulando-se uma inclinação à estupidez. Contudo, o sadismo do sistema é cirúrgico: ele fomenta o descontrole, mas aciona a polícia — o braço armado e repressor do Estado — para espancar e prender o indivíduo assim que ele ultrapassa o limite utilitário da alienação. O fanatismo é permitido apenas enquanto serve de anestesia para o gado; se ameaça a ordem, o sádico chicoteia.


No campo espiritual, as lideranças religiosas atuam como gerentes desse conserva-dor. Sabem perfeitamente que o livro sagrado que professam é repleto de contradições históricas. Compreendem que a escrita pode ser facilmente manipulada e direcionada para o ataque a qualquer grupo dissendente. É desse poço de interpretações convenientes que nasceram e se perpetuam crimes como a xenofobia, o racismo, a escravidão, o feminicídio, a transfobia e a homofobia, além de alienações profundas como o machismo. Sob o pretexto da fé, impõe-se a ideia de um casamento monogâmico tradicional falido e fracassado, que traz sofrimento e ignora por completo a diversidade humana e as suas múltiplas formas de amar.


A política, por fim, que deveria ser o caminho emancipatório para proporcionar qualidade de vida, garantir a evolução voluntária da sociedade e erradicar a fome, a barbárie e a violência, foi totalmente cooptada para servir à classe dominante. Sua função real passou a ser a concentração de renda e a ampliação da desigualdade através da aplicação cirúrgica da miséria: sucateia-se a educação, inflama-se a violência e precariza-se a saúde pública. Toda essa engrenagem visa reprimir o ser humano, reduzindo-o a uma fórmula pronta, um molde existencial definido por quem domina a religião, o aparato de repressão, as estruturas políticas e os meios de produção. O objetivo final é o controle absoluto dos corpos e das mentes. Em suma: alimentar o fetiche de conservar a dor dos outros é a única garantia para que a elite sádica continue vivendo muitíssimo bem.


O conserva-dor opera, fundamentalmente, como uma máquina de produzir dissonância cognitiva. De um lado, a classe dominante instala e mantém o mal para garantir sua opulência; de outro, a classe oprimida, embrutecida e adestrada, aplaude o próprio sofrimento. Ao perder a capacidade de compreender a própria realidade, o sujeito alienado cai na armadilha da estupidez funcional. Passa, então, a buscar a validação do sádico, copiando as práticas do opressor e reproduzindo, na base da pirâmide, toda espécie de maldade contra os seus iguais é assim que o mal se torna banal e caminho, chamada de luta pela l

iberdade, qual?


quarta-feira, 13 de maio de 2026

Poema - Nosso Lindo Paraíso


Criamos na Terra o nosso paraíso,
Lhes tiramos a razão e o juízo.
Animais esclarecidos da dor,
O medo deles está a nosso favor.
De cima, os vemos se matar;
De baixo, eles veem-nos exaltar.

Quanta dor lhes causamos,
Mas fantasias opiáceas lhes damos.
Ficamos invisíveis como o mal,
Agora dizemos-lhes quem é mau.
Demos-lhes os motivos, o ódio e as armas,
Eles, suas vidas e o peso nas almas.

A ignorância os manteve enganados;
Cegos, tornam-se súditos, fãs e escravizados.
A angústia da liberdade, agora anestesiada;
A filosofia pronta deixa a crítica alienada.
Continuísmo, repetição, nada é novo;
Pintamos o velho para a cegueira do povo.

O mundo não nos é o bastante,
Deles, a produção ficou distante.
Instituímos o medo no conhecido,
O reafirmamos no desconhecido:
No material, a fome, o desabrigo e a dor;
No metafísico, o inferno, um “pecador”.

Na vida e na morte os cercamos,
Não dividimos, apenas tomamos.
Deixamos de os ver como gente,
Os gastamos, continuamente.
Demos-lhes um sentido tranquilizador,
Vivemos bem com sua dor.

Loucos para ser como nós,
Se perdem em nossos nós
De retóricas falsas e contraditórias.
A educação que demos fragmenta memórias;
Análise crítica deixaram de fazer:
Líderes, coach, influencer é o que vão ter.

Se tudo começa a se organizar,
Bagunçamos tudo para controlar.
O caos e a burocracia, nossos aliados,
Eles ficam perdidos, alienados.
Se acusam e se atacam;
Se voltam a fantasias, se matam.

No trono oculto de nossa vaidade,
Assistimos ao fim de sua identidade.
Donos do mundo, senhores do jogo,
O purgatório deles pega fogo.
Ganhamos sempre os ajudando,
Faturamos mais os humilhando.

Estamos bem e felizes, obrigado,
Temos toureado bem o nosso gado.
A justiça social nos assombra,
Mas eles não terão nem a sombra.
Que rezem, que chorem, que orem,
E do nosso mal, enfim, nos ignorem!

domingo, 3 de maio de 2026

A Corrupção como Espelho da Sociedade


A corrupção não nasce nem morre na política; ela possui raízes profundas no tecido social. Antes de chegar às altas esferas, ela se manifesta como um microcosmo doméstico: está na fila furada, na ultrapassagem pelo acostamento, na contramão para evitar um retorno ou na compra de um atestado médico. São os inúmeros "jeitinhos" praticados em benefício próprio ou de conhecidos, revelando que a corrupção é, antes de tudo, um hábito cultural.
Acreditar que ela é um atributo exclusivo do poder público nos distancia de dois entendimentos críticos. O primeiro é o de que vivemos em uma sociedade hipócrita, em que o sujeito nega a própria desonestidade para apontar o dedo ao Estado. Psicologicamente, trata-se de uma projeção patológica: transfere-se ao outro o vício que se carrega.
O segundo ponto é o fator de dominação que cria personagens antagônicos. De um lado, o empresário "honesto"; do outro, o político "corrupto". Essa dualidade cria a ilusão perfeita - que favorece o mau caráter - de que, se o setor público é falho, o privado deve assumir a gestão do país. Na realidade, político, empresário, juiz, imprensa e líder religioso muitas vezes formam uma casta única, que se sustenta e enriquece há séculos por meio da corrupção, financiando-se com o erário público. Embora seus papéis variem aos olhos cegos do povo, seus objetivos em relação ao poder e à riqueza permanecem os mesmos. São departamentos administrativos de um país que usa o cidadão para sustentar privilégios, vendendo fantasias em que a maioria acredita, entregando vidas inteiras a privações para satisfazer os desejos dessas elites.
Não existe corrupção isolada. Quando alguém cobra probidade da política, geralmente o faz sem fazer autocrítica ou sob um viés partidário, acreditando que o erro é sempre do "lado oposto" e justificando os deslizes do seu próprio candidato com negacionismo ou dizendo  coisas que o colocam, para o interlocutor, como tendo uma disfunção cognitiva. É esse analisar, a partir das paixões, que torna, para o sujeito, aceitável que um político "roube um pouco", desde que "faça algo". O famoso "rouba, mas faz" é também um ato falho em que o subconsciente entrega a hipocrisia: no fundo o indivíduo aceita o roubo alheio porque, se tivesse a mesma oportunidade de atingir o topo do poder, agiria exatamente da mesma forma e de quebra protege dizer isso é  uma forma de sua paixão.
A corrupção em um país é, portanto, o resultado de uma educação voltada para a sobrevivência do malandro e do "esperto". Sem a máscara do discurso religioso que o moraliza — desmoralizando a oposição — o falso moralismo revela-se tão feio quanto o mal que projeta nos outros. Como em O Retrato de Dorian Gray, a aparência externa é bela, mas a alma está apodrecida. Educamos gerações como o personagem Polônio, de Shakespeare: sujeitos que aconselham com pompa, mas são incapazes de seguir a própria ética, formando uma massa de hipócritas.
Não temos um setor social livre da corrupção; todos os setores estão contaminados porque as pessoas assim o são. É como na alegoria do Anel de Giges: quando ninguém está olhando, o sujeito educado na hipocrisia tende a agir como o personagem da alegoria de Platão. Na sala de aula, ele deixa de fazer as atividades, pois os pais não estão presentes; como não tem respeito pelo professor, atrapalha a aula. No trânsito, vai pela contramão e quebra as regras porque a polícia não está vigiando. Se as pessoas se distraem, fura a fila. No poder, desvia verbas e participa de esquemas de “rachadinha”, afinal de contas, acredita que a Polícia Federal não está vendo, que o eleitor está apaixonado e que, caso fiquem lúcidos sobre seu comportamento, a estrutura irá protegê-lo, pois a maioria faz o mesmo.
Com vistas na máxima que explica que a moral é aquilo que faço quando todos estão olhando, já a ética é aquilo que faço quando ninguém está olhando. A corrupção não é tratável com moralismo; ela é tratada com ética e lucidez. Mesmo que não seja possível extingui-la, é necessário buscar o caminho da ética como única alternativa à barbárie moral.
Referências culturais e filosóficas
Platão – A Alegoria do Anel de Giges: Presente no Livro II de A República. Platão discute se um homem permaneceria justo se tivesse um anel que o tornasse invisível, permitindo-lhe cometer injustiças sem ser punido.
Oscar Wilde – O Retrato de Dorian Gray: Romance que explora a decadência moral oculta por trás de uma aparência de eterna juventude e beleza. A alma do personagem apodrece em um quadro, enquanto sua face permanece limpa.
William Shakespeare – Polônio (Hamlet): O personagem Polônio é conhecido por seus discursos moralistas e conselhos pomposos (como "seja fiel a ti mesmo"), embora ele próprio aja de forma dissimulada e estratégica.
Conceito Psicológico – Projeção: Teoria desenvolvida inicialmente por Sigmund Freud, que descreve o mecanismo de defesa onde o indivíduo atribui a outros seus próprios impulsos, pensamentos ou vícios indesejados.
Cultura Brasileira – O "Rouba, mas faz": Fenômeno do imaginário político brasileiro, associado historicamente a figuras como Adhemar de Barros e Paulo Maluf, que reflete a aceitação da corrupção em troca de obras ou benefícios práticos.


domingo, 26 de abril de 2026

A Fábrica de Sombras


Por que o mundo se tornou um hospício de mentiras?

Introdução

Vivemos em uma era de saturação visual e intelectual, onde a clareza foi substituída por um nevoeiro de narrativas convenientes. O que chamamos de realidade pode ser, na verdade, apenas o reflexo distorcido de nossas limitações e paixões. Para entender por que o mundo contemporâneo se assemelha a um hospício de mentiras, precisamos primeiro revisitar a nossa própria biologia e a sabedoria ancestral.

O Olhar e a Ideia

Não enxergamos as coisas como elas são; nós as processamos em nós. Sob uma perspectiva física, as imagens formam-se no fundo dos olhos, assim como o som é captado pelo aparelho auditivo e o cheiro pelos sensores olfativos. O que vemos são sombras da realidade. Para de fato ver, é preciso submeter o objeto ao campo das ideias — onde as coisas ganham forma e sentido. Platão, embora sem os estudos da óptica moderna, entendeu que o ato de ver pode estar contaminado pelos desejos alheios ou pela nossa falta de conhecimento. Não se enxerga com os olhos, mas com as ideias; se elas forem rasas, a imagem será incompleta.

A Ascensão do Vigarista

Afastar-se das sombras exige não usar as paixões para avaliar a realidade. No entanto, o que vemos hoje é o triunfo do superficial. Com a vitória do sofismo, a mentira e a falta de profundidade abrem campo para a ascensão de toda forma de vigarista, que acredita que tudo é possível se o objetivo for poder e dinheiro. Isso resulta na formação de uma estupidez generalizada, criando homens distantes da compreensão dos males que os atormentam. Nesse aspecto, Nietzsche contribuiu negativamente ao criticar Platão por acusar os sofistas de incoerência. Dessa "inocência na incoerência", chegamos ao duplipensar moderno, o combustível das massas alienadas.

O Hospício das Contradições

Sem a consciência iluminada, seguimos defendendo mentiras como verdades absolutas — a Dissonância Cognitiva. Acumulamos falácias para nos enquadrarmos socialmente até perdermos a identidade. Porque permitimos que líderes que praticam toda espécie de crimes usando as pessoas como uma espécie diferente de homem, uma espécie que pode  ser usada para a satisfação de toda forma  de sadismo e ainda aplaudimos seus ganhos bilionários  que  em nada contribuem conosco? Porque aceitamos leis que favorecem uma elite pequena com toda forma de privilégios enquanto uma maioria é explorada por essa  mesma  classe? Porque aceitamos guerras que matam, causam sofrimento e fome a varias pessoas, mas cujo os objetivos são apenas o enriquecimento de poucos e que nada tem a ver com garantia de paz? Porque acreditamos que dinheiro existe, que países existem, que empresários produzem? Porque aceitamos a miséria, porque aceitamos a exploração em nome de deuses intensamente testados e que em nada comprovam suas atuações por nós? Porque aceitar toda espécie de fantasia em troca de uma sensação de alguma segurança. Com nossa cegueira sustentamos medos em nós para que depois sejam explorados para manter-nos presos aos desejos de uma minoria. Será que a esperança de fato ficou na caixa de pandora ou será que ela está vitimando os homens como todos os outros males que saíram?

A Consciência como Antídoto

Para buscar a verdade, não podemos ser escravos das paixões, como advertiu Shakespeare em Hamlet - Dá-me um homem que não seja escravo de suas paixões, e eu o guardarei no centro do meu coração” - Quem busca apenas confirmar o que já sabe é desleal com a própria consciência. A esperança e o amor tornaram-se recursos de controle; usá-los como "antídotos" para um mundo cruel é apenas uma romantização midiática e falsa que nos distancia das causas reais. O que supera o mal não é o sentimento, mas a consciência sobre ele.

Conclusão

A libertação não virá de fórmulas mágicas, mas da consciência crua sobre as estruturas que nos sustentam. Sair da caverna exige a traição das próprias paixões para que, finalmente, possamos enxergar o mundo não como queremos que ele seja, mas como ele realmente é.

Para saber mais (Referências):
Platão – "A Alegoria da Caverna" (em A República): A base para a discussão sobre como as sombras e as percepções enganam nossos sentidos.
William Shakespeare – Hamlet: A fonte da reflexão sobre a liberdade das paixões e a lealdade à própria consciência.
George Orwell – 1984: Criador do conceito de Duplipensar, a habilidade de aceitar duas crenças contraditórias simultaneamente.
Leon Festinger – Teoria da Dissonância Cognitiva: O estudo psicológico que explica por que criamos mentiras para justificar nossas ações e aliviar o desconforto mental.
Hesíodo – Os Trabalhos e os Dias: Onde encontramos o mito da Caixa de Pandora e a ambiguidade da esperança como o último "mal" a restar no jarro.
Friedrich Nietzsche – Crepúsculo dos Ídolos: Onde o filósofo faz suas críticas mais ácidas ao "mundo das ideias" de Platão.