Da Angústia Sartriana à Barbárie da Moral
Em 1945, Jean-Paul Sartre foi anunciado como conferencista pelo Le Monde para proferir a palestra "O Existencialismo é um Humanismo". Nela, o filósofo defendeu o existencialismo ateu contra os ataques do poder constituído que, como de costume, utilizava-se do pânico moral e de teorias rasas da elite burguesa. Na leitura desse texto, chama a atenção o uso da subjetividade para exemplificar a famosa tese: "a existência precede a essência". Os exemplos dados por Sartre são cirúrgicos e revelam o porquê de fórmulas conceituais prontas — como a religião, a autoajuda e o discurso dos influenciadores digitais — fazerem tanto sucesso hoje. O sujeito contemporâneo foge da angústia da liberdade e se abriga à sombra de um artífice moderno. É como se o homem, tal qual o clássico exemplo do cortador de papéis, quisesse se reconhecer apenas como um objeto criado com um propósito fixo e deliberado. No entanto, essa fuga não escapa ao veredito existencialista: ao buscar fora de si a finalidade para a sua vida, o indivíduo realiza uma escolha deliberada pela má-fé, tentando marcar a realidade de sua própria autonomia. É por isso que o existencialista declara, frequentemente, que o homem é angústia. Tal afirmação significa o seguinte: o homem que se engaja e se dá conta de que é não apenas aquele que escolheu ser, mas também um legislador que escolhe, simultaneamente, a si mesmo e a humanidade inteira, não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade.
Ao abdicar da escolha autônoma para seguir caminhos preestabelecidos por outrem, o sujeito moderno assume um comportamento que evoca o julgamento de Adolf Eichmann em Jerusalém. Sob a análise de Hannah Arendt, Eichmann personificou a renúncia do pensamento crítico: um indivíduo que abriu mão da própria autonomia para se guiar estritamente pelas regras e ordens do sistema. Essa postura o coloca no lugar da estupidez institucionalizada, onde a adaptação cega substitui a reflexão. Contudo, essa transferência de responsabilidade não livra o sujeito da angústia. Pelo contrário, ela gera uma nova modalidade de sofrimento: a dor de sufocar os próprios desejos e deformar-se para caber na fôrma alheia.
Não é de se espantar, portanto, que ao falhar em se ajustar completamente, o indivíduo passe a operar em dois campos simultâneos: o Fictício, encenado publicamente para demonstrar engajamento com a receita de vida socialmente aceita, e o Real, praticado às escondidas para salvaguardar suas verdadeiras inclinações das críticas externas. Sob a ótica de Sartre, se o sujeito mantém apenas a persona fictícia, ele opera na mais pura má-fé. Se ele defende o fictício atacando publicamente o real que ele mesmo pratica, cai-se na hipocrisia explícita. No entanto, emerge uma terceira via: o que dizer daquele que sustenta ambos os campos em paralelo, sem atacar o seu real oculto? Seria esse desdobramento um ato de sobrevivência ou de canalhice? Quando o motor dessa duplicidade é o medo real do isolamento, dos ataques sociais ou da dor de decepcionar os entes queridos, o comportamento desponta como um mecanismo de sobrevivência psicológica e social. Classificar essa cisão sumariamente como "canalhice" significa ceder ao reducionismo de uma moral engessada — justamente a mesma moral que, historicamente, afastou o ser humano de sua própria essência e o empurrou para o exílio de uma vida dupla, forçando-o a esconder quem deseja ser em troca de uma existência socialmente integrada, porém profundamente infeliz. Essa encruzilhada existencial revela que, fundamentalmente, a moral é — e sempre foi — um instrumento de poder, exatamente como afirmava Nietzsche. O sujeito que só encontra a felicidade fora das convenções sociais compreende, no fundo, que teme uma engrenagem enraizada na coletividade. Trata-se de uma estrutura que subjuga o indivíduo, tornando-o fraco diante da ignorância e da estupidez de uma massa que opera por meio do pânico moral. Afinal, para o poder constituído e para a maioria homogênea, é extremamente fácil convencer o corpo social de que a vida de um dissidente das regras morais vale menos. As pessoas, no entanto, têm clareza sobre essa dinâmica violenta. É a plena consciência desse mecanismo punitivo que nos trouxe a uma sociedade onde a hipocrisia é amplamente institucionalizada e praticada. Nela, as ações humanas não são orientadas para esclarecer quem se é ou como se deseja viver, mas sim planejadas de forma calculada para enganar e performar.
Essa engrenagem punitiva encontra sua raiz e seu maior guardião na religião, a instituição que historicamente ditou — e ainda dita — as balizas da moralidade. É sob essa herança que os relacionamentos humanos frequentemente desaguam em desfechos traumáticos. Desde a infância, o indivíduo herda as diretrizes iniciais do núcleo familiar, uma educação dogmática da qual ele teme perder o reconhecimento e o afeto. Ao perceber-se diferente com o passar do tempo, o sujeito se vê encurralado: revelar sua verdadeira essência significaria desconstruir-se perante os outros, magoar aqueles que ama e ficar vulnerável à barbárie da manipulação social operada pela moral.
Essa dinâmica de opressão guarda um paralelo assustador com o fenômeno da banalidade do mal. Assim como Eichmann, alienado pela ideologia nazista, foi manipulado a acreditar na imoralidade intrínseca dos judeus — tornando o simples ato de assumir-se judeu um risco de morte —, o sujeito contemporâneo enfrenta um processo idêntico de ocultação. Seja um marido ou uma esposa que busca fora do casamento o que a fôrma matrimonial sufoca, seja um bissexual ou um homossexual forçado a sustentar uma vida dupla, mentir sobre a própria essência torna-se uma estratégia de sobrevivência contra o linchamento moral. A moral dogmática faz vítimas e destrói o homem por dentro.
A reação desse sistema engessado diante do dissendente é previsivelmente cruel. Em vez de acolher a dor daquele que se agoniza para tentar caber em um molde artificial, a moral reage atacando: acusa o desviado de ser "apenas um safado", uma pessoa menor ou um vetor de perversão. Há uma perversidade cirúrgica nessa retórica, pois ela costuma associar o sofrimento ou o isolamento do indivíduo a um fracasso pessoal provocado por sua suposta incompetência. O sistema inverte a culpa: o indivíduo que ousa desviar-se da linha de produção de padrões humanos — projetada especificamente para gerar homens iguais, ajustados para enriquecer e servir às castas mais altas do poder — é apontado como o único responsável por sua própria desgraça. A máquina que o deforma é a mesma que o condena por não ser perfeitamente moldado.
Como bem indicava Nietzsche, a verdadeira soberania reside na capacidade de o próprio sujeito estabelecer seus valores, libertando-se das amarras transcendentais. É preciso, portanto, cindir a moral da ética. Enquanto a moral é o cabresto da convenção e do poder, a ética deveria ser a busca consciente pela justa medida da convivência — esta sim, digna de aplausos. Contudo, se a sociedade priorizasse a ética em detrimento da moral, a estupidez coletiva perderia sua força e a religião perderia seu controle. Diante disso, o homem moderno permanece cindido, sacrificando sua autenticidade no altar de uma santidade simulada para não ser devorado pela barbárie dos homens de “bem”.
Referências Bibliográficas
Sartre (O Existencialismo é um Humanismo):
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. Tradução de João Vergílio Gallerani Cuter. São Paulo: Paulus, 2014.
Hannah Arendt (Eichmann em Jerusalém):
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. Tradução de José Rubens Siqueira. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
Friedrich Nietzsche (A Genealogia da Moral / Conceito de Moral como Poder):
NIETZSCHE, Friedrich. Genealogia da moral: uma polêmica. Tradução de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia d
as Letras, 2009..

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