"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.

sábado, 4 de julho de 2026

Crônica - O Fubanga


O fubangismo está sempre produzindo ou reproduzindo o atraso. Vejam só o caso do Delvison Fubanga, que ficou rico fazendo vídeos sobre o seu dia a dia na vila do atraso. Quando as coisas melhoraram, seus vídeos passaram a ser sobre as coisas que ele comprava. Delvison agora não era mais um qualquer. Tornara-se uma figura pública, um exemplo de sucesso. Sua profissão era a de influenciar as pessoas a ver as coisas que ele postava, para que essas pessoas pudessem passar o dia todo sendo influenciadas pelas coisas que ele dissesse que elas deviam fazer para influenciar, para que a influência pudesse ser influenciável. Acho que vocês, leitores, devem ter entendido.

Após algum tempo, Delvison Fubanga conseguiu patrocinadores. Agora podia influenciar os influenciáveis a comprar vários produtos, e ganhou muito dinheiro. Porém, os vídeos de dancinha, as mansões, os carros importados, as viagens e as festas já não eram suficientes para manter o engajamento, competir com os outros pelo patrocínio e monetizar. Era preciso mais. Era necessário causar impacto.

— Equipe, temos que pensar em algo para aumentar as visualizações — disse Fubanga ao seu staff. — Está todo mundo criando reality. Que tal a gente fazer um reality? Quero ideias…

— Que tal a gente organizar um campeonato de xadrez? — sugeriu o roteirista. — Daí damos um prêmio alto para o vencedor.

— Isso não dá like, ninguém quer saber disso! Tá louco, é? — cortou Fubanga. — Estou com uma ideia muito melhor. Que tal a gente pegar três dos nossos seguidores e colocá-los para realizar algumas provas em troca de dinheiro?

— Boa ideia, chefe! — disse o roteirista.

Gravaram um vídeo e postaram em suas redes. Para participar, era necessário que o sujeito provasse que estava disposto a qualquer coisa para ficar próximo ao seu influenciador — já que era um influenciável.

A primeira eliminatória foi a "Travessia do Amor". A prova consistia em o sujeito nadar por 100 metros no Rio Tietê até o bueiro onde, supostamente, o esgoto da casa de Delvison Fubanga desaguava. Dezenas de seguidores compareceram para tentar a vaga. Como apenas os dois primeiros se qualificariam para o reality no sítio, os demais puderam tentar uma repescagem na segunda prova. Nessa, a equipe de Fubanga não estaria presente, e o participante deveria ser rápido: consistia em gravar um vídeo fazendo a brincadeira chamada "rolar carniça", na qual o sujeito devia encontrar um bicho morto e rolar nele, passando a podridão pelo corpo.

Dois dias depois, Fubanga veio a público em uma live para mostrar os vídeos. Ele ria e se divertia com a cara de asco e a ânsia de vômito dos influenciáveis e o terceiro participante foi escolhido. O público se dividia entre os que tiravam sarro e alguns críticos que achavam aquilo uma exploração dos pobres coitados. Mas Fubanga rebateu as críticas:

— As pessoas são livres para fazer o que quiserem. Eu não estou forçando ninguém!

Os três classificados finais foram para o sítio de Fubanga. Lá, deveriam participar das provas principais. Podiam desistir a hora que quisessem, mas, a cada etapa realizada, o participante ganhava cem reais. Assim que as regras foram anunciadas, um dos três participantes desistiu na hora. Fubanga, que apresentava ao vivo, disparou:

— Mas é mole mesmo… É por isso que é pobre, desse jeito não vai chegar a lugar nenhum, meu filhote! Vai embora, covarde, fraco!

Os outros dois participantes concordaram com o chefe e vaiaram o colega, bem como os comentários que o lincharam virtualmente. Um dos participantes disse: "Como pode perder uma oportunidade dessas?". E o outro concordou: "Pois é".

— Vamos à primeira prova! — anunciou Fubanga. — A primeira prova é "Saindo da Fossa". A fossa da chácara foi aberta. Quem mergulhar nela e conseguir sair primeiro ganha o ponto e os cem reais. Estão prontos?

Os dois competidores disseram que sim. Quando Fubanga deu o sinal, eles saíram correndo e mergulharam nos dejetos. Como o que estava lá dentro, além do cheiro terrível, era extremamente escorregadio, as câmeras filmaram uma verdadeira patacoada. Eles se batiam na tentativa desesperada de subir, enquanto Fubanga e sua equipe, à distância, divertiam-se pelo alto-falante, estimulando a disputa e zombando da ânsia de vômito dos rapazes. No fim, um deles conseguiu escalar e foi o ganhador. Havia uma série de duchas para os participantes se limparem. As redes eufóricas loucas por mais comentavam e curtiam. As pessoas ansiosas desatentas com a própria vida assistiam e comentavam várias vezes o vídeo.

No dia seguinte, a plateia online já esperava o circo de horrores iniciar, com anúncios e propagandas sendo exibidos antes do espetáculo. Fubanga surgiu, cumprimentou os seguidores e apresentou o próximo desafio:

— Vamos à segunda prova! Hoje vocês terão que ser muito rápidos. Durante a semana, eu e minha equipe comemos muito bem aqui na chácara, e as sobras foram jogadas fora… Quer dizer, foram jogadas na pilha de lixo à frente dos senhores! Quem conseguir encontrar três dos restos indicados no cardápio da semana e comer, fica com o prêmio. Vejam só, hein, gente? Teve dia que comemos caviar! — riu Fubanga. — Prontos? Valendo!

E lá foram os influenciáveis comer do tão sonhado "lixo de luxo". Terminada a prova, o prêmio foi entregue ao vencedor da rodada. Fubanga, obviamente, tripudiou:

— Muito bem, esse é guerreiro! E ainda ganhou um almoço de rico, hein, amigo?

O participante, com um pouco de terra no canto da boca, sorria para o apresentador e dizia que estava muito gostoso. A plateia nas redes não via a hora da grande final. O que viria por aí? Qual limite os bravos influenciáveis teriam que encarar?

No último dia, o quintal estava enfeitado com um palco baixo e painéis de LED que exibiam as marcas patrocinadoras da live. Fubanga surgiu com uma roupa toda cheia de brilho, multicolorida e muito animada.

— Bom dia a todos! Hoje é a final do nosso reality! E, como vocês podem ver ali atrás, temos uma ambulância. O que vai acontecer? Vocês me perguntam. Vamos ver quem dá o sangue de verdade pela nossa comunidade! A prova vai funcionar da seguinte forma: quem conseguir encher o meu potinho primeiro com o próprio sangue, sem desmaiar, ganha o grande prêmio e ainda leva um bonequinho do Fubanga! Estão todos com a agulha na veia e a mangueirinha pronta? Valendo!

E lá foram os finalistas. Conforme o sangue subia nos potes, o mal-estar tomava conta. Um deles acabou desmaiando e precisou receber atendimento imediato na UTI móvel. Por fim, quase apagando, o outro participante resistiu até o último mililitro e venceu o programa.

Naquele mesmo dia, Fubanga contabilizava e comemorava os cinco milhões de reais que havia faturado com a transmissão.

Os três participantes que passaram pelo programa seguiram suas vidas. O que desistiu no primeiro dia pegou uma infecção intestinal grave por conta do nado no Tietê e precisou fazer uma vaquinha virtual para o tratamento. O que desmaiou na final contraiu febre tifoide por causa do mergulho na fossa; a família teve que ajudá-lo para comprar os remédios e a alimentação dele. O vencedor, que ganhou o prêmio principal, agora está morando na rua. Como dizem muitos críticos na internet: "Não soube aproveitar a oportunidade de ouro que teve, povo sem cultura…"