A Inutilidade do Excesso e o Sequestro da Existência
A equação da vida humana, quando despida dos artifícios da modernidade, é de uma simplicidade quase poética. Do ponto de vista estritamente biológico e existencial, a nossa sobrevivência e plenitude dependem de uma tríade fundamental: o alimento que nutre o corpo, o descanso que regenera a mente e o afeto que justifica a jornada. Não há complexidade nisso. A terra, em seu estado natural, sempre foi perfeitamente capaz de fornecer o sustento; os ciclos do sol sempre souberam ditar o repouso; e a nossa natureza gregária sempre nos inclinou ao cuidado mútuo. Diante dessa verdade elementar, a estrutura do mundo contemporâneo deixa de parecer um ápice civilizatório e passa a se revelar como um completo absurdo.
Se tudo o que precisamos cabe no limite do que é vivo, para que serve a escala monumental da nossa destruição? Assistimos, anestesiados, à pilhagem sistemática do planeta: montanhas inteiras são devoradas por frentes de mineração, oceanos e subsolos são perfurados até o esgotamento em busca de petróleo, e biomas inteiros são reduzidos a cinzas e pasto. Pior: travam-se guerras geopolíticas sangrentas, sacrificando vidas humanas reais, para disputar o controle desses mesmos recursos finitos. O paradoxo é grotesco: destrói-se a base da vida (a água, o ar, o solo) para alimentar uma engrenagem que produz o supérfluo. Financia-se a morte em nome de uma riqueza que ninguém pode comer, beber ou abraçar.
Essa lógica do excesso atinge o ápice do ridículo no nosso cotidiano mais banal. Nós alcançamos o estágio de sofisticação industrial onde o óbvio precisa ser processado para ter valor. Criamos indústrias bilionárias de refrigerantes e sucos de caixinha repletos de xaropes, conservantes e corantes artificiais, ignorando deliberadamente que a laranja já nasce perfeita, pronta e embalada pela própria natureza no galho de uma árvore. Substituímos o essencial pelo simulacro. Fomos ensinados a rejeitar a abundância simples da terra para nos tornarmos dependentes da escassez artificial do mercado. Criou-se a necessidade do inútil.
Esse cenário não brotou do acaso; ele é o resultado de um projeto de dominação histórica. Em algum momento da nossa trajetória, as terras que eram comuns a todos foram cercadas, privatizadas e transformadas em propriedades e ativos financeiros. Fomos expulsos do quintal do mundo e empurrados para as linhas de montagem, para os escritórios e para as telas. O sistema não apenas confiscou os meios de subsistência autônoma, mas operou um sequestro cultural: ele nos convenceu, por meio da força, medo, publicidade e do discurso do desenvolvimento técnico, de que este modo de vida frenético, ansioso e poluído era o "progresso". Disseram-nos que este era o melhor dos mundos possíveis.
A grande farsa do século XXI, no entanto, já não consegue se sustentar sob o peso das crises climáticas e da falência da saúde mental global. Inegável inclusive para quem mais desmata, pois o Agro negócio já pede seguro para se proteger dos prejuízos que o El ninō irá causar em 2026. A pergunta que ecoa diante de cada floresta derrubada, de cada barril de petróleo extraído e de cada prateleira lotada de produtos plásticos descartáveis é urgente e incontornável: este progresso foi o melhor para quem? Certamente não para a humanidade que adoece trabalhando para consumir o que não precisa, e muito menos para o planeta que sangra para sustentar o lucro de uma minoria invisível. É hora de romper o feitiço do consumo e lembrar que o necessário nunca dependeu da destruição. Será que os benefícios que são de fato benefícios? Será que a ampliação da espectativa de vida dos seres humanos não é inversamente proporcional a expectativa de vida do planeta como o conhecemos? Será que valeu a pena e irá continuar valendo a pena trocar o concreto pelo abstrato?

