"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.

terça-feira, 23 de junho de 2026

Crônica - O Encontro dos Erros


 

Hoje encontrei um antigo vizinho de porta com o braço engessado, desses que fazem farra todo final de semana. Em sua casa, a festa começa na sexta-feira e termina no limite da noite de domingo, e isso porque ele precisa sair para trabalhar. Costumeiramente, sai ainda sob o efeito do álcool.

— Acho que estou com virose — disse ele ao chefe.

— Acho melhor ir para casa, vá ao médico — respondeu o chefe, desconfiado do sujeito.

O malandro ia dali para o hospital para conseguir o amparo de um atestado médico. Saindo do hospital com a receita e o documento, corria para o mercado, pois ganhara mais algumas horas de farra. Em casa, a patroa não se surpreendia e sempre chamava a atenção do sujeito para a farra e para a moto. Pois é, ele andava de moto e, para chegar mais rápido, a metia na contramão sempre que podia. Aos amigos, gabava-se:

— Nessa vida temos que ser espertos. Acha que eu vou dar a volta no quarteirão se por aqui corto caminho?

Os amigos quase sempre respondiam:

— Cuidado, se a polícia te pegar, vai tomar multa e os caras vão levar sua moto.

— Que nada, sou esperto e fico de olho vivo, olho muito vivo! — dizia, e se acabava de rir da sua própria falta de ética.

De forma alguma se perguntava por que devia seguir as regras que constantemente quebrava; pensava apenas nas facilidades que suas transgressões poderiam lhe trazer. Certa vez, arrumou uma confusão na fila da lotérica. Furou a fila se aproveitando da distração de uma senhora, mas o que ele não percebeu foi que ela estava acompanhada do filho, que de imediato chamou sua atenção:

— Ei, o senhor não tem vergonha na cara não? Furando fila!

Mas, como é natural dos canalhas quando são pegos em seus delitos, ele negou:

— Você está maluco, é? Estou aqui desde antes de vocês chegarem!

— O senhor é um cara de pau — respondeu o outro — e pode voltar para o seu lugar na fila.

Nesse momento, um coro de vozes, inclusive de atendentes, o constrangeu a ponto de ele abandonar a fila e se retirar debaixo de vaias. Mas não acredite o leitor que ele aprendeu. De forma alguma.

A vida é uma loteria: há dias de muita sorte, mas também há dias de muito azar. Nosso amigo, certo dia, quando descia a rua pela contramão, deu de encontrar um de seus vizinhos embriagado, que subia a rua em seu carro e acabou por atropelá-lo. Na rua, formou-se um debate onde todos, de um lado a outro, achavam que tinham razão:

— Esse vagabundo desce sempre a rua na contramão, bem feito para ele! — disse um sujeito que saía de um bar à frente.

— Mas a culpa é desse bêbado — retrucou uma vizinha que não deixava ninguém dormir, pois adorava um som noturno. — Ele não sabe que é proibido beber e dirigir?

— Mas isso não é desculpa — disse outro, soltando uma fumaça fedorenta do seu pod. — Todo mundo sabe que não se pode descer a rua, é contramão.

— E encher a cara de cachaça e dirigir feito um louco pode? — disse uma vizinha viciada em jogos on-line. — Fico indignada com uma coisa dessas.

Nesse momento, chegam a polícia, uma ambulância e, logo depois, o guincho. Um foi levado ao hospital e o bêbado foi conduzido à delegacia. Ambos os veículos foram apreendidos. Na delegacia, o motorista embriagado, além das multas, seria autuado pelo crime de embriaguez ao volante. Um policial, que cumpria medidas administrativas por ter baleado um cidadão e era investigado por envolvimento com cobrança de propina, lhe dava um belo sermão:

— O senhor não tem vergonha não? Um homem na sua idade fazer uma coisa dessas... O sujeito, um cidadão de bem, está lá no hospital todo arrebentado. O senhor é um canalha.

O motorista, que naquelas alturas já estava menos sob o efeito do álcool, permanecia de cabeça baixa e respondeu ao policial:

— Mas senhor… ele descia a rua na contramão, não vi ele…

— Claro que não viu — retrucou o policial. — Estava bêbado! Não justifique seu erro com o erro dos outros. Faz a merda e põe a culpa nos outros.

No hospital, o paciente, cheio de arranhões e com muita dor, recebia atendimento. O médico que o atendia — um candidato a vereador que sempre "dava um jeitinho" para quem necessitava de um atestado médico ou para passar uma cirurgia à frente dos demais pacientes — lhe dizia que o braço estava quebrado e que teria que engessar. Pensa o leitor que o acidentado ficou triste com a notícia? Claro que não. Depois de tomar os remédios para a dor durante uns dias, a farra recomeçou. Na sua casa, em meio ao som alto, eles discutiam inflamados sobre a corrupção em Brasília, e tudo segue normalmente…

Diante dessa distopia, assistindo a esse espetáculo diário de pequenos delitos justificados pelo erro alheio, imagino eu... como seria viver num mundo em que as pessoas entendessem a razão das coisas, e não concordassem com a crítica ao outro sem antes olhar para dentro de si mesmas?