"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.
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segunda-feira, 29 de junho de 2026

Crônica da Barbárie racista com Verniz Social



O Olimpo dos Ninguém

A incapacidade cognitiva humana tem muitas faces, mas nenhuma é tão visceral quanto o racismo. Esta semana, ao assistir a uma gravação no canal do Márcio Rolim, testemunhei a materialização exata dessa tese. O registro flagrava um crime explícito, cometido contra duas mulheres pretas amplamente conhecidas pelo grande público devido à sua atuação na grande mídia. O que se revelou ali, contudo, foi muito além da violência verbal ou física imediata; abriu-se uma fresta para o bastidor asqueroso de um ecossistema que apenas os fãs — essa massa deliberadamente cega — se recusam a enxergar.

O fã médio, na contemporaneidade, opera sob um estado de instruída estupidez. Ele eleva o objeto de sua devoção ao grau de ser supremo, destituindo o artista, o influenciador ou o jogador de sua condição humana e cheia de falhas. Como bem diagnosticou Friedrich Nietzsche, "o fanatismo é a única forma de força de vontade acessível aos fracos". Diante da própria incapacidade de criar valores autônomos ou suportar o peso das dúvidas, o homem-rebanho abdica de pensar e se agarra desesperadamente a uma convicção absoluta. No momento em que o ídolo é transformado em um deus puro e perfeito, suas opiniões viram dogmas e ele se torna o detentor da verdade suprema.

Reunida essa massa de fracos que mimetizam força através da idolatria, forma-se um exército pronto para proteger o opressor e, ironicamente, ser explorado por ele. Muitos desses "deuses" não possuem talento algum, mas a busca humana por divindades artificiais e o cultivo da ignorância são tão estimulados que as pessoas aceitam de bom grado dormir em barracas por dias, brigar nas ruas e passar por todo tipo de perrengue para adorar um bezerro de ouro moderno. Para essa massa fanatizada, como dizia Nietzsche, "as pessoas não querem ouvir a verdade porque não querem que suas ilusões sejam destruídas".

Em seu clássico O Homem Medíocre, José Ingenieros alertava sobre o perigo do sujeito que enriquece antes de adquirir cultura e estofo moral: a fortuna precoce em uma mente vazia produz apenas tiranos domésticos. Sem o lastro do pensamento crítico e da empatia, o indivíduo coroado pelo mercado perde o senso de proporção da realidade. Ele passa a acreditar que seu sucesso é fruto exclusivo de um mérito divino ou individual (a armadilha do ego). É o que Theodor Adorno desnudou ao analisar a engrenagem das celebridades na Indústria Cultural: o sistema fabrica "gigantes financeiros" que operam como autênticos anões civilizatórios. Sem cultura prévia, tornam-se marionetes vazias de convicção, moldadas puramente pela conveniência do capital e do aplauso fácil de seus seguidores.

Como no caso clássico de Jeffrey Epstein — o operador de bastidores que não era a estrela de cinema, mas cercava-se de poderosos que se serviam de sua estrutura —, o criminoso da gravação não precisava ser o mais famoso da tela. Ele é o homem dos recursos, do capital, o sujeito rodeado por celebridades que dele dependem para manter o próprio status. Quando o crime racial estourou, o pacto de silêncio e conveniência entrou em ação. Ninguém agiu com crítica aberta a ele; ninguém se posicionou de forma contundente em apoio às vítimas. Quem se calou ou ficou em cima do muro o fez por puro cálculo: o rabo preso e a necessidade de continuar servindo-se do agressor falaram mais alto.

O cinismo atingiu seu ápice nas mensagens de "solidariedade" direcionadas ao criminoso. Foi ali que o efeito Darcy Ribeiro, descrito em O Povo Brasileiro, ganhou vida em cores nítidas. Darcy explicava que o Brasil criou uma válvula de escape para evitar o conflito racial aberto: em vez de segregar radicalmente, a elite permitiu a absorção individual do negro que ascende, desde que ele adote os modos, a cultura e a mentalidade dessa elite branca. O impacto psicológico disso é a separação do "negro-massa". Capturado pela armadilha do ego e para manter seu novo status, o indivíduo que sobe frequentemente passa a reproduzir o preconceito contra os seus, distanciando-se de suas origens.

Por isso, causou asco — mas não surpresa — ver famosos pretos endossando a blindagem do agressor. Sob o manto de uma linguagem terapêutica e cínica, enviaram recados como: "Você está numa caminhada evolutiva e fico feliz que esteja aprendendo". Transformaram um crime de racismo em uma mera oportunidade de aprendizado pedagógico para o opressor, transferindo o holofote da dor da vítima para a "jornada espiritual" do criminoso. Nietzsche alertava que "tudo o que é absoluto pertence à patologia"; a pressa em perdoar o poderoso e relativizar o absoluto da violência é o sintoma mais agudo de uma sociedade doente.

Esse episódio desmascara a farsa do ativismo de vitrine. O engajamento em causas raciais dessa casta de celebridades dá-se unicamente quando é benéfico para suas carreiras e contratos publicitários. São figuras ocas, moldadas pelo oportunismo, prontas para serem preenchidas por qualquer narrativa que gere capital e a vaidade dos aplausos daquela mesma massa romantizada e fanática.

Ao fim desse espetáculo dantesco, a realidade nos cospe na cara a máxima de Paulo Freire: quando a educação não é libertadora, o desejo do oprimido é ser o opressor. No topo da pirâmide, a cor do privilégio e o cheiro do dinheiro compram o silêncio e a cumplicidade daqueles que um dia estiveram na base, mas escolheram prender suas cabeças pensantes à mente dos donos do poder. Apagar a mensagem ou retirar a curtida após a pressão das das pessoas e das marcas não desfaz o pacto; apenas esconde o verniz até que o próximo escândalo renove o ciclo da barbárie.