"O rigor do pensamento para desvelar a realidade. Um espaço dedicado à autonomia intelectual, à crítica social e ao exame das sombras que obscurecem a educação e o mundo contemporâneo." Aletheia (Gr. ἀλήθεια): O ato de desvelar; a verdade que deixa de estar oculta.

domingo, 21 de junho de 2026

Crônica - O Aquário idiotizante de Domingo

 


Crónicas:

O Aquário idiotizante de Domingo

O domingo é realmente um dia deprimente para quem se deixa levar pelas distrações desse aquário chamado sociedade em que fomos postos. Sentado no sofá de casa, resolvi ligar o televisor. Sei que devia sair para algo mais produtivo, como uma caminhada ou ler um bom livro, mas peguei o controle remoto e acionei o botão sem pesar; talvez já esteja sob o efeito da idiotização a que as pessoas são submetidas. Pensei… é, ainda penso.

Tentei acompanhar o que passava, mas logo  fiquei inclinado a desligar assim que o apresentador fez a primeira piada:

"Fulana falou sobre como tal sujeito é incrível e maravilhoso. Hum, só isso, Fulana? Ou rolou mais alguma coisa?"

Todos riram, não sei se por vontade própria, ou por obrigação de uma placa, ou pelo riso dos famosos que  estavam no palco. Em casa, muito provavelmente, muitos também seguiram o coro de risos. Parece uma fala tão boba, mas é incrível como, naquele momento, me pareceu que o tempo havia regredido e que eu estava novamente em 1992. Não se tratava de um sentimento saudosista, de nostalgia, nem de uma memória afetiva; senti que 40 anos é pouco tempo para que as pessoas de uma sociedade mudem seus gostos. Digo isso porque, se ainda usam a conotação sexual como forma de fazer com que as pessoas fiquem ligadas à televisão, é porque elas gostam desse tipo de tentativa de piada que adentra a particularidade do outro.

Mas, se o leitor acha que desliguei, devo decepcioná-lo: mantive ligada. Na sequência, o tal apresentador anunciou um "bom samaritano" que ajudava umas pessoas a partir de um assistencialismo  que usa o esporte como meio.

— Ele é um cara incrível, meu — disse o apresentador — ajuda muita gente. — Apesar das dificuldades, tenta ajudar esses jovens a realizar seus sonhos — respondeu o bom samaritano. — E algum dos jovens que você ajudou já chegou a algum grande clube? — perguntou o apresentador. — Não, mas quem sabe...

O apresentador mal esperou o sujeito continuar; sabe bem ele que viver de sonhos não paga a conta. Mas, estimular o eterno sonho fazendo esse tipo  de discurso de autoajuda, sim melhora a imagem e dá muito muito dinheiro para ele próprio, ele completou:

— Eu sempre digo: o esporte muda vidas, meu.

Pensei... realmente. Aí se esconde um medo de que o sujeito se revolte e não esteja bem enquadrado e ajustado para não dar trabalho.

Nesse momento, desliguei a televisão. Mas os senhores se acalmem: não se trata de um protesto contra um projeto de distribuição de renda; na verdade, trata-se da constatação de que o que se desejava com aqueles pobres era a espetacularização, pois não ouvi sequer o sujeito falar em justiça social. Acho que isso não deve dar ibope, ainda mais… entre os anunciantes.

Desligar a televisão é o ato mais fácil. O difícil, e que levo comigo toda segunda-feira para a sala de aula, é tentar desprogramar esse olhar que se acostumou a ver o outro como um espetáculo ou um favor, e não como um sujeito de direitos.

O domingo acaba, mas a idiotização, essa, é um turno integral.